Percebi o espaço reduzido que ocupo nos lugares. Em festas não circulava muito, entendi ser uma característica minha. Em casa, só vou até as plantas, nada na sala me importa. Também deixei de usar o escritório; como e trabalho deitado, feito Drummond, até que o rastro luminoso mudou a dinâmica de minha ocupação dos cômodos. Depois dele, eu andava por todos os lados. Procurava o telefone, o controle remoto para ligar no noticiário. Minha cabeça é que parecia ter acabado de entrar na atmosfera terrestre. Vi o céu daquele jeito e me aproximei da janela, enterrando a cara na grade de náilon. A edição extraordinária chamou o céu de firmamento, penso eu, para dar o tom apocalíptico que o episódio pedia. Poderia admirar a tarde toda o infinito azul, gradativamente, ganhar tons terrosos, alaranjados, rosáceos e abrir um buraco na paisagem, mas o medo era muito maior. O telefone não funcionou, a televisão apagou. O prédio aumentou o tremor das colunas. A lixeira da rua derramava os sacos plásticos porrudos pelo chão, parecia máquina de lavar com sapatos dentro. As plantinhas das janelas destruindo o teto dos carros. Eu estava sozinho, o mundo acabaria comigo de cueca, telefone mudo na mão e um cagaço equiparável apenas ao medo de palhaço bate-bola. Minha esperança era que, talvez, o fenômeno fosse vaporizado pelo atrito atmosférico, e que, talvez também, eu estivesse do lado errado da Terra naquele momento, vendo tudo tão de perto. Mas ele perdeu aceleração, com a calma de quem veio resolver tudo num único golpe de misericórdia. Tive tempo de assistir ao filme da minha vida, cheia de vergonhas que faziam todo sentido naquele momento. Tudo era explicável, menos o fim. Desmaiei. Acordei com o ventilador de teto funcionando meio capenga. Meu cachorro debaixo da mesa, tremendo e me olhando com cara de faça algo. Os fogos eram para comemorar, imaginei estar onde mora Deus, mas não sabia se podia entrar com animais de estimação, fui conferir na janela. O talho no “firmamento” apenas sugeria a passagem de uma estrela-cadente. As pessoas na janela comemoravam, mas, o quê exatamente? Já anoitecia e as luzes do meu quarto piscaram e acenderam, depois, veio a do corredor. A luz da sala onde eu estava morto, mas vivo, ligou e a tevê sintonizou mais uma vez no noticiário: A imprensa o chamou de Flor-de-Lótus, devido à maneira como explodiu, pulverizando um líquido lindo, multicolorido, sobre os continentes. Quase oito bilhões de gotas espalhadas. Os hospitais liberavam seus pacientes aos grupos. Minha vizinha, Margarete, internada fazia semanas, passeava sem máscara pelo pátio, pude ouvir sua neta chamando. O prejuízo dos consórcios de vacina era o maior em toda a história médica, tarde demais. “Foi a natureza”, segundo o âncora do telejornal. Sem saber como reagir, abracei o Shakespeare e esperei o telefone tocar. Estávamos os dois cansados e famintos.
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FLOR DE LOTUS. 08.12.2020
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