Por que os ponteiros do relógio não se mexiam? O cheiro havia sumido. Algo na memória era capaz de carregar consigo outros sentidos; o odor ainda estava na lembrança de Cosme. O relógio no pulso, o brilho do ouro, o encontro. A ponte, a chuva. Nunca é a própria chuva, mas a ideia da água caindo, o momento inacabado. Cosme estava leve, um homem que passa dos oitenta quilos não pode se sentir leve, apenas não havia chão. Flutuava. As gotas caiam. Ele não se questionava. Não sugeria a ideia do porquê estaria ali. Nenhum indício na memória que o levasse até aquela ponte. Minha filha. Vaga ideia de uma lembrança. Eu preciso encontrar minha filha… Qual o nome? Ele sentiu paz e voltou a olhar para a chuva. Pequenos objetos, moedas, chaves, já não pesavam mais os bolsos do sobretudo. Será que alguém se lembra de mim? Eu não conheço ninguém. Mas eu sei quem sou. Meu nome? Será que me chamo… ah! Essa chuva. Abriu a boca e sentiu a ideia da água na língua fora da boca. – Boa noite, cumprimentou. Mas o homem que passava deixou apenas um olhar lançado, queria algo. Estou atrasado. Olhou mais uma vez o pulso: o relógio havia desaparecido. Sacudiu e lá estavam os ponteiros novamente, e depois a caixa, o bisel e, por fim, a pulseira. Se Cosme é mesmo meu nome, então… Cosme se lembrou de um escritório. Máquinas de datilografar, mas ele não as tocava. Se lembrou desse dia, em que saía às pressas para encontrar a filha. Onde? Preciso estar lá? Uma garotinha tocou a outra mão. Uma mão vazia. Moveu a cabeça e não encontrou a força que o puxava para baixo pedindo atenção. Se ele conseguisse interpretar a sensação diria que estava louco, mas ele não conseguiria. Estava perdendo a memória no instante em que surgiam. Sua filha gritou seu nome, logo após passar o homem que não o cumprimentou. Ele olha para frente, toca a barriga. O gosto da lama. – Cosme, levante-se… por favor. A primeira imagem que viu foi a dos pés. Não conhecia couro branco. A água suja de sangue rebatia no sapato e escorria, como se a lama e o couro alvo não compartilhassem o próprio momento. Contra a luz, uma sombra larga surgia, o dobro do tamanho do homem que a projetava. A vítima comprimiu os olhos. Gotas d’água quicavam no pavimento impedindo a visão, não saberia distinguir se alguém se aproximasse. Mas aquela criatura apenas surgiu. Todos os detalhes eram nítidos, inacreditavelmente reais. – Era você lá atrás?… Me perdoe, você é algum… cliente meu? – Cosme, Cosme. Em termos práticos, o cliente aqui é você. Minha missão é apenas levá-lo. Encolhido no chão, procurou mais uma vez o outro homem na esperança de não estar sozinho em seu destino. Acima de sua cabeça, a chuva havia cessado. A sombra que o protegia o consumiu. Um fio grosso e vermelho percorria vagarosamente as ranhuras da madeira, desfazia-se ao encontrar a água abaixo da travessia. A ponte estava novamente limpa e vazia. Apenas um rio lavado de sangue como testemunha. Na cidade que sempre chovia, fazia um dia de sol. As nuvens foram embora levando as sombras de um céu azul que muitos não conheciam, estiveram ali apenas de passagem. Faz dez anos, você precisa jogar aquelas máquinas de escrever no lixo, dizia um rapaz olhando para a namorada. Ela mesma parecia não ouvir. Olhava a rua e soprava a bebida quente. Ao mover a xícara, Mirna refletia o dourado pela janela da cafeteria. Olhou para o relógio e lembrou do homem que andava poderoso, entrando e saindo de prédios altos – admirado, e temido, por todos. A advogada olhou para o rapaz e disse que não eram mais namorados. Ela estaria muito ocupada, terminou dizendo. Agradeceu mais uma vez e saiu. Em um canto da extensa sala, era possível ver a última Underwood. Preservada como um troféu endereçado a alguém que retornaria. Da vista panorâmica do novo escritório, Mirna ainda observaria por muito tempo a ponte que rasgava a cidade em duas.
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PERIODO IRLEN. 02.01.2020
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