– Veja. É impressionante como ainda estão lá. – Você já ouviu a frase “Não sabendo que era impossível…”? – Foi você? – Podemos dizer que sim. – Nãããão. Como pode dar isso a eles? Essa… como é a palavra? – Fé. A palavra é Fé. – Isso, fé. A “sua” fé já nos custou muito. Mas eu adorei saber que foi você. Vamos ver como se saem hoje. – Você sabe que podemos acelerar, né? – Imagina, não me tire esse prazer. Estou entediada a quase dois milênios. – Você é sádica… (Vamos ver como ele fará hoje). *** A cidade estava sufocada por turistas. A temperatura subia de um dia para o outro e não havia previsão de chuva para a festa. Antes mesmo de pegar o celular, Rob olhou para o teto, o mesmo teto de trinta anos atrás. Sem manchas, sem alterações, limpo, assim como sua vida agora. Não importava a fama, o título de matemático não trazia nenhuma resposta. Só esvaziava suas perguntas. Os números ocupavam tudo. Maldito presente, seu pai repetia no jantar antes de sua partida. Ele tinha se distanciado de sua própria natureza. Nós somos animais, meu rapaz, temos instinto e você parece o próprio gelo do ártico, derretendo por baixo da porta de nossa casa. Mas apesar da perda de seu pai, de volta à casa de sua mãe, mesmo que por um curto período, ele sabia que algo estava indo embora junto. Algo além de si mesmo. O gosto em sua boa pela manhã estava diferente. Ele trazia nos pulmões o ar pesado e cinzento com a mesma intensidade dos dias anteriores, era para estar diferente. Algo não está batendo, murmurou ao escovar os dentes com a mão apoiada no espelho. A cada ano eram menores em número. Porém, os que vieram para a almoço foram analisados com muita cautela pelo matemático. Não eram as mesmas pessoas. Não era a primeira vez, mas ele não se lembrava mais da sensação de estar vendo tudo de fora. Um garfo vai ao chão e ele ouve que um homem chegará por conta do acontecido. Uma prima censura o comentário dizendo que a época de um homem chegar e resolver alguma coisa já passou. Agora cada um resolve os próprios problemas, afirmou. Ele não sentia o agridoce característico da época. Sentou na velha poltrona manchada, a contragosto da matriarca. Esse seu filho é um estrangeiro, balbuciava ao fundo procurando onde guardar os pratos. O telejornal anunciou um fenômeno inédito na costa onde se encontrava a família Alborn: Uma aurora boreal no hemisfério sul. O fenômeno está sendo acompanhado por todo o mundo pelas lentes do nosso canal, acompanhe ao vivo conosco este, que promete ser o ‘réveillon’ mais bonito da história de Vicsaint. Rob sentiu um estampido nos ouvidos e a imagem do garfo caindo ao chão se repetiu inúmeras vezes. O barulho do metal tilintando no azulejo o atordoava, o deixava enlouquecido. Era real, a imagem estava ali. Ele estava sentado à mesa novamente. Eu já disse pra você não sentar aí caralho! O aparelho de tevê era um modelo antigo, não havia controle remoto entre os dedos. Ele olhava para a imagem de seu pai em pé com uma caneca na mão e um prato na outra esperando que ele se levantasse. Cerâmica corta como navalha a carne tenra de um garoto. A caneca espatifou-se no osso de seu rosto inúmeras vezes, o som e a dor eram insuportáveis. Meu filho levante já daí, sua vó não gosta que sentem na poltrona do seu falecido pai. O cérebro não calculava a força necessária para mover as pernas. As mãos que iam ao encontro do rosto não eram sólidas, nada colidia. Tudo era harmonia entre o que foi e o que estava sendo. Mas faltava uma peça, faltava uma coisa: faltava o futuro. Foi o que Rob concluiu ao longo do dia, deitado, olhando para o mesmo teto. O único ponto neutro na passagem de todas as memórias. Como é valioso esse pequeno metro quadrado branco, ele pensava. Pela porta de seu quarto, profusos acontecimentos giravam num cômodo que nunca foi o dele, mas Rob sentia nos nervos a dor de se lembrar de tudo, ao mesmo tempo. Ainda não era hora, todos nesse dia sabem quando sair, o cardume branco lá fora mostra a direção. E Rob sabia o que tinha que fazer. Ele precisava ver a aurora anunciada na tevê. E o melhor momento para isso seria antes do pôr do sol. Deixou a casa imediatamente, sob o olhar de reprovação da família por estar de camisa preta, cueca samba-canção e descalço. Algumas poucas barracas estavam sendo montadas, as vias sendo interrompidas pela guarda. E o céu estava lá. Como tinha que estar. Uma dança de cores, ‘nuances’ tremulando sob uma terra em aflição. Todas as paletas entre o vermelho e o azul foram usadas para criar o efeito insólito de não pertencer a lugar algum. Uma mulher se aproximou e pediu para sentar-se ao seu lado. Sim, claro. – Você sabe porque estou aqui. – Você também. E você não precisava mesmo das suas calças. – Eu também? …Acho que sim… – Você acha que mais alguém viu este céu na tevê? – Sou o Rob, muito prazer. – Isso não importa, Rob. Você é o único que sabe. Ninguém mais consegue ver o que estamos admirando agora, né? Só eu e você. – Isso é real? A mão feminina tocou os dedos comprimidos no concreto do banco da praia do sul. – Você sente isso? – Sim. – É real pra você? – Muito. Mas… – A aurora de dois mil e vinte. Como eu sonho com esse despertar. Eu acredito no dia em que isso irá mudar. Eu só não sei como, mas eu sinto que “você” talvez saiba. – É. Nunca vamos chegar lá. Mas hoje eu… Ela pediu que Rob não movesse o corpo para frente, que apenas a beijasse de olhos fechados. Consentiu, ela estava lá para isso. O horizonte havia desaparecido. Não era possível olhar para o clarão, não na velocidade que o sopro lampejante vinha em sua direção. O vento súbito cortou os lábios de um beijo infinito. O vento súbito varreu as barracas, limpou as ruas e levou embora o chão. Na sala de estar, a velha cadeira de seu pai também deixava de existir. Finalmente, nada mais estava onde sempre deveria estar. O cálculo estava completo. Feliz 20000110110101010111.
001
001.
BUG DO MILENIO. 01.01.2020
001