Claudio estava há tanto tempo no mercado financeiro que não percebeu a transformação. Se tornou um homem rígido, como os números. Exato, calculista e metódico. Se sentia prazer, resolvia imediatamente e partia para o próximo tema da lista do dia. Era quase como uma interrupção, uma mania, que impedia seus pensamentos de se organizarem. – Tá gostando, galeguinha? – Mais forte. Puxa meu cabelo. O telefone tocou. A caixa de ressonância do piano amplificou o som. Claudio percebeu o que estava acontecendo. – Você estava gravando? – “Empregadinha ignorante”. – Quê? – Não foi isso que você disse ao telefone, outro dia quando saía daqui? Eu ouvi a conversa. Quem é o burro agora? – Você quer dinheiro, não é? – O que você está fazendo? – Ligando para Brigite. Ela não é a dona da casa? Você vai presa. O corretor saiu pelado em direção ao piano. Pegou o celular, que Soraia havia roubado da irmã Simone, e voltou para o quarto. – Você escolhe… o celular… ou… ou a Brigite. – Pode levar. Eu preciso desse emprego. Claudio saiu confiante de que continha o segredo bem guardado. Simone sorriu e disse baixinho que tudo já estava gravado e publicado. Em algum outro ponto da cidade Brigite interrompeu as carícias de Sid para conferir se era mesmo verdade. – Como assim ele sabe que eu tenho outro número? … Soraia… – Que foi, leoa. Bora continuar. – Sid, evapora. Tô com um pepino enorme para descascar e depois fazer um gin tônica. Sai logo. Claudio voltou para o escritório. Apesar de Simone ter aprontado, ele ainda sentia vontade. Abriu o que os amigos chamavam de “quengaral”, o app para executivos que, ao invés de fecharem negócios, abriam as pernas das jovens ambiciosas por colocação no mercado. Mas um outro aplicativo notificou que Claudio havia conseguido um ‘match’: Soraia. Tão parecida com Simone que ele não exitou em adiantar o assunto e convidá-la para uma reunião de negócios. “Oi, pai, vou dar uma passada aí pra gente conversar sobre a minha produtora, to precisando de um aporte financeiro. Vai rolar ou a tal da Brigite ainda manda em você? Afinal, você ainda está tentando tirar os cinquenta por cento que são dela por direito? …” – Paula, eu prefiro que você não me envie mensagem de áudio, por favor. Vou entrar em uma reunião importante agora, outro dia a gente conversa sobre dinheiro. “Afinal”, é só esse o tema das nossas conversas. Paula levantou o braço e apertou o celular. Fez uma pausa e abriu o aplicativo para pedir mais comida. Claudio foi até o banheiro. Voltou recomposto. Apalpou o bolso, analisou o aparelho de Soraia. Tentou desbloqueá-lo. Irritou-se ao ouvir o interfone. Deixou o celular sobre o sofá. Olhou para o seu próprio telefone e viu que Simone havia respondido. Ela mesma já estava no prédio. Lutando contra sua fobia de elevador. Mas a cidade estava tão entediante que ela não desperdiçaria a única chance de tentar algo antes da nova gripe pegar.
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PECADOS CLAUDIO LINKEDIN. 21.03.2020
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