082
082. IRA BRIGITE TWITTER. 22.03.2020 082

Uma cidade é mais que o fluxo de pessoas, trânsito e barulho. As camadas são decompostas em aluguéis, donos dos imóveis e a terra. Brigite tinha suas raízes fincadas no solo de Vitória. Descendente da família Boldrin, importantes especuladores há gerações, parques, loteamentos e os maiores empreendimentos imobiliários mantinham a vida incompatível em uma cidade menor que Rio ou São Paulo. Brigite criou o seu circuito particular de luxo. Sid cumpria seu papel no teatro da socialite: ‘toy boy’, como ela mesma dizia.  – Preciso ir, Sid.  Momentos depois entrava enfurecida pelo corredor.  – Esse piano ainda está aqui, Soraia? – Seu Claudio não passou aqui, não, patroa.  – Engraçado… esse perfume no ar não diz isso.  – Af, como eu sou esquecida. Ele veio aqui sim, bem rapidinho. Mas a senhora não estava…  Brigite passou a mão sobre o instrumento. Deslizou os dedos pelos contornos. Olhava para os lados, não encarou a empregada. – Sei… Me prepara um refresco e traga meu celular.  – O de ficar em casa?  – Anda, anda.  A dona da casa tinha o semblante inquisitivo, como quem tenta desvendar um mistério. Tomou o café sem açúcar e abriu o aplicativo. A fumaça embaçava as lentes dos óculos de leitura.  – Ivana, você viu o tuíte do Carlos Albuquerque? Eu nunca vi colunista bancar o médico de plantão, só fala dessa tal Corona. Quê?… Tá… Sua mãe é? Quantos anos ela tem… Que horror… Melhoras… Imagina, tô nova ainda…  Deixa eu desligar que minha enteada tá me ligando. Um beijo.  Atrapalhou-se para sair do ‘app’, o único onde ela buscava algum holofote. Os impressos não traziam mais nenhum requinte.  – Paulinha, meu docinho. Me interrompendo, deve ser importante…  – Brigite, você está sabendo o que o seu marido anda aprontando? – Ex. Ex-marido…  – Ele já assinou os papéis, “afinal”?  – O que tem o seu pai?  O link foi enviado. A patroa pediu ajuda a empregada para acessar.  – Soraia, me ajuda com uma coisa aqui… A empregada pegou o telefone, percebeu de fato o que havia feito. A prova estava ali, no celular de sua patroa, com marido e sua casa expostos.  – Você é o que, idiota? Meu celular… que droga…  – Desculpa dona Brigite, vou limpar, foi sem querer.  – Deixa, era alguma coisa da chata da Paula. Amanhã comprou outro celular.  A empregada tomou o rumo da cozinha com o aparelho boiando dentro da jarra de água saborizada. Sid cortava a cidade para conseguir dinheiro com uma outra cliente. Simone deixa a loja mais cedo. Paula descontava a indiferença de sua madrasta na comida. Claudio arrumava-se na suíte do escritório. Guilhermina aguardava pelo namorado. Todos eles faziam a primeira camada da cidade girar com o rumo de seus decisões.