Voltou da rua ofegante, desinfetou a sola do pé, tirou a roupa e atravessou nua a sala. Esfregou as mãos. Respirou fundo com a água que chega fria e só depois é que esquenta. A obra começou a bater. O som da britadeira agredia os tímpanos com a violência de um tapa bem dado. Perdeu a contagem, esfolou as mãos quando precisava esfoliar. Os peitos acolhidos nas palmas feito fruta, lavou as dobrinhas. Examinou. O som de uma outra máquina de obra eriçou o corpo de súbito. Olhou para o condicionador quicando no porta-xampu. Fechou os olhos e começou a se lavar pelo braço esquerdo. Saiu do banho. Desenhou dois traços e um arco no embaçado que o vapor deixa no espelho. O pescoço de lado para analisar o reflexo. Fez um bico, colocou um dos pés sobre o vaso e iniciou o ritual de secagem entre os dedos. A pontinha da toalha passeava entre uma unha mal cortada e outra. Já vestida, segurando uma caneca com bebida quente, procurou o vento. Contou as janelas de um, depois do outro prédio. Somou, hipoteticamente, e chegou ao resultado, impreciso, de uns 60 apartamentos para dividir a mesma espera; o dia em que o novo prédio se ergueria para dividir com eles a mesma dor.
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PAVIMENTAR. 05.11.2020
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