A ansiedade de dias confinada levou Úrsula a buscar soluções antiestresse. Plantou feijão, alongou, ligou para a irmã. Criou rotina, paranoias e ranço da tevê. Fez compras online. Arrependeu-se de ter esquecido papel higiênico. – Como um item tão básico pode ser ignorado? As compras chegaram. Crise de ansiedade. Procurando o celular, deu uma topada na banqueta. A quantidade de informações confundiu a busca no portal de notícias. – Onde estava o link sobre protocolo de higiene ao receber encomendas? Esqueceu-se da água sanitária. Do cloro. Do álcool. Esqueceu-se de que não estava sozinha. – Você tem esposa, tarado. Vai botar uma camisa, idiota. Lavou as mãos em dois atos de faroeste caboclo. A farmácia entregou o necessário para os pronunciamentos do presidente. Criou cardápios variados, compartilhou. Maratonou séries, filmes, curtas. Longa era a espera. Chorou. Esse é um desabafo de uma professora frustrada por não ter conseguido montar vídeo aulas. Publicou. À flor da pele, não aguentou o comentário “você precisa dar uma pausa, está ficando louca”. Pegou a banqueta e posicionou-a de frente para a janela. Levantou a camisola. Desabotoou o sutiã. O vizinho fez-se de rogado, passou mais uma ou duas vezes. Nua, crua, no limite… Úrsula fez uma pausa para desamarrar alguns conceitos, olhares e fetiches.
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PAUSA. 02.04.2020
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