Saiu uma reportagem no jornal mostrando as paisagens de vários lugares pelo mundo sob o efeito da ausência dos seres humanos. Um vírus trancou todos em suas casas. Num rio, o sedimento assentou e mostrou a beleza dos peixes, a exuberância das águas claras sem o efeito da passagem dos barcos. A cidade é bela sem os humanos, mesmo sendo eles próprios os construtores de tudo que é peculiar em sua ausência. – Isabel, vamos descer e tirar umas fotos. – O nome disso é egoísmo. – Por quê? – Eu também li a matéria, se todo mundo sair… O isolamento social não foi uma escolha. Não conseguir a foto perfeita na muralha da China, também não. Os turistas, humanos, ocupam o metro quadrado da paisagem e elegem aquele espaço como sendo seu, temporário, a duração de uma selfie. Assim como há milhares de anos tribos ocuparam e dominaram a natureza local. Entediado, o homem dominou a si mesmo. A natureza foi uma ideia, um conceito, lembrado em tempos de coronavírus… e nós não estamos nela. – Vamos rapidinho, por favor. – Vai você, Carlos. Ninguém curtiu a foto de um homem invadindo um conceito. O ambiente, completo conjunto de unidades que funcionam como um sistema natural, mesmo com a intensa interrupção do namorado de Isabel, buscava fôlego e equilíbrio. Resiliente, a terra tremeu menos. O homem tremeu de frio, trancado do lado de fora de casa. Talvez tenha tremido de medo. A natureza é parte do todo social, econômico e político. O homem também é natureza, mesmo com outra roupagem, mesmo mudando necessidades, a moeda, a vontade. Mesmo isolado. Não somos outros, somos os mesmos. Com a mesma saudade.
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OUTROS. 03.04.2020
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