Sou muito sensível ao café, pela manhã é meu limite. Duas xícaras a mais e a casa estava completamente faxinada. Tirei o pó dos livros, passei esfregão. Escada e flanela, o maleiro estava impecável. Encontrei tudo que tinham roubado aqui de casa, tudo que tinha quebrado ou sumido na mudança. Remexer coisa velha faz bem, mas só enquanto pratica a atividade de extrair o líquido preto do sangue. É o momento em que sobe uma dopamina de guerreiro e não bate a depressão ao ver aquela foto antiga, o brinquedo velho. Sei lá, mil coisas. Minha mãe é diabética, me sobe a pressão num estalo. Encheu a cara de pão e foi dormir, acordou redondinha de tudo. Dormiu o dia todo. Eu por ali, passando o esfregão, batendo nas quinas. Acordou e soltou o famoso “Ó” dela. O sorrizinho lutando para sair de dentro da preguiça. Bateu animada em direção à cozinha: ceia de natal. Todas as panelas ligadas na tomada, não usa gás, nem encanado. Tudo elétrico, mas no celular ainda uma briga. Contratamos um frango para o papel de peru. Recolhi todo o material de limpeza, lavei a louça. Num intervalo do primeiro ato da ave, encostamos por ali. Batemos papo. Ela me mostrou umas imagens de feliz natal do whatsapp e eu perguntei se ela tinha gostado do presente. Que presente? A casa, ué? Tá um brinco! Ela riu e disse que essa joia não podia usar, era muito linda. Vigiou o peru assar. E eu ainda nem cheguei no cachorro da vizinha, que cismou em uivar.
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PAPEL DE NATAL. 24.12.2020
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