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095. BUNQUER. 04.04.2020 095

O barulho, que antes invadia a sala de jantar, foi simulado pelos pratos quebrados. Não era idêntico ao dos acidentes frequentes na curva onde residia a família, mas o susto foi o mesmo. Paolo descuidou-se com a bandeja ao ver que à mesa estavam três monstros horríveis. Provavelmente tinham engolido a família inteira no intervalo de uma ida até a cozinha.  – Esse bigode… papai, é você? Um monstro com cara de peixe podre misturado com gosma lamacenta do mangue espalhou os cotovelos pela mesa.  – Claro que sou eu, filhinho.  – Amor, vá pegar uma vassoura e limpar essa bagunça.  No lugar onde deveria estar sentada a mãe, uma loba peluda com um fio de baba caindo sobre os peitos sorriam para o pequeno.  – Eu falei, mamãe, ele não ia conseguir trazer tudo. Desperdiçou todo a mousse. Paolo deu um pulinho para trás, abriu um pouco a boca.  – Luana, é você? – Claro, mané.  Mas o irmão só via ataduras e besourinhos andando pelos buracos do corpo da irmã.  O filho caçula atravessou os cacos, tateou as paredes sem desviar o olhar da família e subiu ligeiro até o quarto. Ouviu os passos degrau por degrau. Três batidas rápidas na porta, como seu pai costumava indicar conversa séria.  – Filhinho, eu sei que você está aí. Do outro lado, um cabo de vassoura sustentava o tapete suspenso. Um lençol arrematava a cabana fazendo uma entrada em cortinas para o bunker. Dentro, a lanterna falhava. Paolo não tinha como distinguir a aparência, mas a voz era a mesma.  – Assim que a quarentena acabar, o pai compra uma lâmpada nova para o seu quarto. Prometo, tá bom? O menino nada disse. Mais passos pela escada, dessa vez mais ágeis. Duas sacudidas e a lanterna projetava a sombra do ataque. O peixe, a loba e a múmia pularam sobre o bunker num ataque fulminante, sem escapatória. Os gritos foram ouvidos de longe, os vizinhos saíram às janelas imaginando ser outro acidente.  – Amor, não precisa se preocupar, é só louça. Vamos fazer outra mousse juntos. Tá bem? – Não vai dizer nada? – Tá bom, pai. Desculpa, Paolo. Não queria… você sabe… te assustar.  – Vocês não são monstros?  A mãe, bem vestida para as reuniões por ‘skype’, o pai de pijama e a irmã descabelada riram juntos. Paolo tirou um potinho de álcool do bolso, desinfetou as mãos e coçou os olhos. Olhou mais uma vez: eram eles mesmos…  – São vocês mesmos… Vocês poderiam me perdoar?  – Era só um doce, amor.  – Não por isso… – Pelo que então, filhão? – Pelos efeitos colaterais. – Efeitos colaterais do quê, perturbado? – Do excesso de convivência… eu acho.