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007. O SOL DA MANHA. 07.01.2020 007

Não fosse o grupo impedir a prefeitura do corte, supostamente ilegal, dona Abeni não teria chorado. Na direção inversa do litoral, a manchete previu o destino de João. Sem prenúncio, a mesa virou, arremessando todas as lembranças para o alto, antes mesmo do primeiro gole de café.  Um rosto conhecido no aplicativo de notícias do filho, de um aparelho emprestado pela faculdade. Como dá ‘zoom’ aqui, perguntava ansioso. Pai, essas tricoteiras tão bombando porque queriam cortar a árvore delas. O coração aos galopes como se alguém tivesse jogado sapatos na máquina de lavar instalada em seu peito. Vinte e três horas a mais, somadas ao reencontro que demorou muitos anos para acontecer. O grupo, que havia protestado pela última sombra do vilarejo, apertava os olhos para ver quem vinha. As queridinhas do momento na internet teriam mais uma história para contar. O calor do chão embaçou a imagem que se aproximava. O sangue na veia craquelada, endurecida pela saudade, correu mais uma vez.  O milagre do choro que da terra quase seca rompeu em tromba d’água. O abraço não viajou no tempo, o tempo era o próprio aperto de qualquer abraço. Quatro crianças e um homem, que nunca haviam passeado, saíram para brincar no sol da manhã. Décadas em ‘reprise’ de um filme que como plateia, hoje, só teria dois fantasmas. Não houve palavras. Era o vilarejo e mais um ali. E se qualquer curioso, que conhecera pelas telas um grupo de senhoras enfurecidas, passasse por lá, observaria.  Da porta, protegida pela sombra da árvore preservada, na direção de uma cadeira no alpendre que dava para a calçada, surgiu um homem.  Ofereceu suco em ato peremptório. O perdão que poderia começar pela mãe, terminou no filho inesperado.  O vento seco que fazia as senhoras taparem o copo com a mão, levou embora qualquer mágoa. Ela que ficou famosa nas telas, agora via pela primeira vez, numa tela, o rosto do neto atrasado.  E Dona Abeni, que, além de tricô, também sabia reconhecer que nem só de sombra viveu a mulher. A epopeia do chão batido, da trama, do ponto sem nó, em fuga. Sempre lutando no escuro pelo brilho de uma manhã em algum ponto do passado.