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029. O MANIACO. 29.01.2020 029

– Você, vai querer o quê? – Pão com linguiça e um pingado, por favor.  A aparelho de tevê ficava em cima da chapa. O nome do homem que aterrorizava a região estava borrado por gordura, mas o áudio saía perfeito. O rapaz aguardava o café da manhã espiando o julgamento do maníaco.  – O senhor ainda está sendo julgado. Peço que a defesa acalme o réu.   – Meretíssimo, gostaria de conceder alguns minutos para que meu cliente pudesse concluir o raciocínio.  – Concedido! Mas peço que ele modere o tom.  O homem percorreu a sala com os olhos. Encarou uma mulher de aparência muito jovem no júri popular e continuou a contar sua versão.   *** Há alguns anos, eu a vi sozinha pela rua. Senti uma vontade de entrar em sua companhia. Perguntei:  – Você está vendo aquele prédio ali? – Estou, é muito bonito. – E você já visitou? – Não, paga quanto? Expliquei que não precisava pagar, que iria comigo. A inocência em seu olhar me comoveu. Senti o impulso de repetir algumas vezes. Sabia que era errado. Mas era mais forte que eu.  – Você quer? – Eu sempre perguntava antes.  Na noite da captura do suspeito, várias identidades falsas foram encontradas. Uma lista de possíveis aliciadores foram contactados pelo aplicativo de conversa.  A prefeitura cancelou, naquele ano, todos os festivais e manifestações culturais públicas. Prédios foram fechados. Os repórteres falavam sobre uma máfia. Vários elementos estariam na rua, prontos para atuar, assim que saísse a sentença do suspeito.  Decidiram protelar o julgamento para avaliar os efeitos. Até que a primeira vítima apareceu e decidiu falar.  – Você está sob juramento, prossiga.  – Bom, eu não sei o que aconteceu comigo, mas depois dele eu não paro de sentir vontade de fazer de novo.  Vejo uma peça de teatro, um museu ou mesmo uma apresentação pública na pracinha e paro para observar. Existem alguns fatores relevantes que ninguém presta atenção. Como, por exemplo, a iluminação. Tão relegada no teatro. E a montagem, só falamos dos atores. Música de câmara é tudo tão incrível. Nada disso existia antes. Cinema é ótimo, mas não é tudo.  O juiz interrompeu com a martelada. Todos se levantaram e a sessão estava encerrada. A moça sentada no júri sorriu para o “maníaco”. Com a absolvição do réu, pouco tempo depois, a cidade estava tomada de grupos visitando museus, galerias de arte e cinemas populares. Casas de cultura ganharam público e um pequeno filme, simulando a história do homem injustiçado, estava sendo exibido na praça, onde havia acontecido o primeiro encontro do agitador cultural.  Vários grupos de crianças de olhos vidrados experimentaram pela primeira vez a arte gratuita, sem motivo, explicação, apenas a contemplação. Ao longe se ouvia o projetor… – Você está vendo aquele prédio ali… é um museu, vamos entrar? …  – Agora olha aqui, quer? – O que é isso? – É uma revista, um catálogo. Aqui diz que todo conhecimento acumulado, ao longo dos milênios, pertencem a vocês.  – Vamos conhecer? – Não sei… Eu posso mesmo? – Criança, você pode tudo.