Há alguma coisa de peculiar entre a vontade de mudar e a própria vida interferindo com seu fator peremptório. Determinando, ela mesma, quando algo deve acontecer. Onno sentia vontade de mudar de profissão. Ainda não havia tentado. Sentia vontade de mudar seu comportamento, era explosivo, alimentava os lobos errados dentro de si. Um dia parado no trânsito viu uma notícia sobre uma ameaça à cidade, mas foi a mulher no noticiário que o impressionou. Ele podia sentir o perfume, tocava sua pele macia, podia sentir a voz dela sussurrando eu seu ouvido, ao invés da buzina que pedia passagem. – Já vou! Já vou! Por interferência de sua vontade de mudar, e às vicissitudes da vida, agora, descia até um abrigo subterrâneo, onde todos o aguardavam. Um rapaz olhava para o pulso e passeava de um lado para outro com algumas baterias conectadas ao corpo. – Viram isso? Voltou a ser manchete em todos os noticiários chineses, só para mascarar essa maldita epidemia. – Onno, o governo não vai enviar o resgate, estamos presos aqui. Disse outro. – Quanto ainda temos de gás? – Quase nada, o suficiente para hoje, mas estamos em oito… – Tudo bem, podem me cortar. E sobre esse Falkor? Voltou a olhar para o rapaz com o visor no pulso. Um dos membros do búnquer ouvia a discussão na entrada. Cheirou um pote de queijo. Outros suprimentos apodreciam sem energia. – Não disse que acredito, estou curioso. Corrigiu a postura. – Falkor, é uma lenda, Onno. E o nome desse titan nem é esse. Essa imprensa internacional que inventa essas miscigenações midiáticas. – Mas por não acreditarmos estamos aqui hoje. É ou não é? O país é seu, eu acreditei em você. A conversa foi interrompida por outro membro entrando pela única porta do Abrigo subterrâneo. – Estão dizendo no fórum que vai acontecer essa noite. – Vai acontecer o que essa noite? – Aquela repórter, a bonita, do canal chinês, disse que o tal monstro… – Falkor – Todos pronunciaram uníssonos. – Isso. Ela disse que… se a lenda for verdade, claro, eu nem acredito… vai acontecer em pouco menos de duas horas. – É o tempo que temos de suprimentos… Em uma cidade isolada por um vírus, com governos omitindo resgate e grupos sem a sorte que aquele tinha: ser pequeno e articulado, com motorista, médico e todos falando o mesmo idioma, votaram. – Eu vou subir. Quem vem? Quatro acima, quatro abaixo. O grupo de dividiu de maneira igual numericamente, por vontade própria. Se despediram com o afeto que a união forçada oferecia. Olharam-se nos olhos e podiam sentir o fim compartilhado. – Se essa tal lenda for verdadeira, em menos de duas horas estaremos juntos novamente. O suor das testas misturou-se. Onno subiu as escadas do búnquer para admirar a única promessa, a esperança que a repórter havia plantado em seu coração. – Já estou morto de qualquer forma. Respondeu a um membro do grupo que havia escolhido acompanhá-lo. – Amigo, alguma vez você já brincou com dominós? Digo, já jogou? Onno balançou a cabeça. – Escute. Se o Falkor fizer o que a televisão diz, precisamos documentar isso. Alguém vai nos encontrar. Ninguém deu ouvidos, pois o vapor gelado e o vento interrompeu a conversa. Ao abrirem a escotilha de saída, viram algo sobrevoar o lugar onde se refugiavam. Um dos quatro, para aproveitar a oportunidade de saída ‘kamikaze’ lançou um drone e mapeou o esconderijo. Pelo visor confirmaram e olharam para o céu. – A moça… da tevê… tinha razão… A dança sensual acompanhada de ondas coloridas, como aurora boreal, adornava o corpo cintilante do demônio branco. Como uma cobra se entrelaçou no próprio corpo, a cabeça agilmente passou por um nó feito por sua coluna vertebral. – Não acredito no que estou vendo… O chinês segurando o drone batia na porta do abrigo subterrâneo. Perdeu a ato final. A boca do monstro se abriu. O cheiro de flor de cerejeira e almíscar chegou fresco ao solo, levantando a neve como um sopro calmo e gentil. O ser mítico formava uma imagem geometricamente perfeita ao abocanhar o próprio rabo. – Capicua! Pelo visor no pulso do companheiro, Onno viu a data 02/02/2020.
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CAPICUA. 02.02.2020
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