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005. O AUTO DO CARAPETAO. 05.01.2020 005

De todas as histórias que se tem para contar, o caso de moço Everin talvez seja a mais curiosa delas. Dia desses, sofreu tamanha injustiça que protestou por misericórdia. Inconformado com repentina condição, implorou e conseguiu audiência.  O acordo era certeiro: subir ligeiro, consertar a cagada e voltar cá para baixo. O incidente diplomático entre céu e inferno estaria resolvido, se não por uma coisica de nada: Everin havia mentido com a cara mais deslavada. E pior, os dedos cruzaram-se para o pai da própria mentira: o lazarento, o pele salgada, o coisa ruinha, só descobriu quando já era tarde demais. Maldita patarata. No calor do cômodo amarelo, o pau a pique chega derretia com a luz forte sobre o moço bonito, que lotava a sala de pena do seu destino. – Senhor, rogamos pela alma de Everaldo Matias Matoso Leão… O povo abriu roda. – Crêin Deus Pai todo-poderoso! – Discunjuru meu sinhô Jesus! Devolvido à carne, negou o último suspiro. Está vivo o morto, gritou a beata. Uma correria para dentro e para fora. Era medroso e curioso tudo girando no salão velado em roda improvisada. Aproveitou-se caixão, flor e beberam cachaça do ex-finado, que de cadáver mesmo só tinha o bingulin. Cravado de tanto aperreio negociando há pouco, de frente para o cramunhão, o próprio. O diabo. Doença rara, vi na tv, dizia o padre. Tá curado, esse não cai mais. Tava aí uma verdade. Uma vez atravessado o rio, cujos peixes nunca chegaram, só daria para voltar puxado pelo próprio cão em má pessoa. Tava condenado.  Everin, você dorme comigo hoje, sussurro convidava. Metade da cidade, que fique bem claro do sexo oposto, com uma ou duas escamoteadas, já havia balançado o lençol do milagre. Pra negar pedido só com o ominoso na cola. Hoje não, amanhã com certeza. Na porta da escola. Bateu em retirada. O féretro ainda no formato do esqueleto do pobre conhecido do andar de baixo. Uma morte. Uma intervenção divina. E, para quem aparecesse, entregado tava o recado. O céu é desorganizado ele soube, Gabriel era só empregado, não dava pra adivinhar quem viria socorrer. Mas que tava enviado, tava enviado.  O abismo, de tão abarrotado, se tornou mais arranjado. O retorno da última barca para o inferno já tinha hora, data e local marcado. Na execução do encargo, estava ali a segunda missão, de cunho pessoal. Everin queria sentir, pela última vez, a boca quente. Quando no súbito arroubo da morte, foi-se injuriado. Posso até voltar, mas antes, pelamordideus sobe de novo, ua veizinha só, meu castiçal. Sujeito pobre fora enterrado do outro lado da pequena cidade. Por azar inverteu ele mesmo o combinado. Matou primeiro, entregou o recado ao sujeito de cima. E correu, foi beijar mulher de delegado, que de tão protegida por grade, guarita e calibre, ficou devendo ao homem um beijo não beijado.  A barca passa, não se sabe quando, não se sabe como. Atravessou o caminho do homem que acreditava que sabia tudo, só não conseguiu enganar, mesmo que por um segundo, o próprio diabo. O enterro mudou de lugar, só não mudou a data de enterrar, por duas vezes, o mesmo finado. Se você chegou até aqui, acabou de ler uma homenagem ao meu irmão Ricardo. Que de Ariano à Suassuna, nunca se sentiu, nem por uma vezinha só, decepcionado.