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004. A GAROTA PEIXE. 04.01.2020 004

Cardume é o substantivo coletivo que designa um grupo de peixes, normalmente da mesma espécie e do mesmo grupo etário, nadam como se fossem um único indivíduo. Está escrito na Wikipedia, e isso pode ser contestado. Primeiro, pelo fato de que se trata de um site colaborativo, qualquer um pode adicionar excertos. Segundo, porque a pessoa que escreveu provavelmente não conhecia Lila, a garota peixe.  Ela havia nascido com a estranha condição de não enxergar muito bem, tampouco havia óculos para o caso, então seguiu a vida sentindo as coisas a seu próprio modo.  Um dia, um professor usou a palavra absurdo ao olhar para ela. Lila gostou, se sentia uma cidadã romana, os primeiros a usar a palavra com o sentido conotativo. E ela era meio surda também, então, absurdo era uma palavra boa.  Alguns colegas não sabiam como se comunicar. Por exemplo, algumas espécies de baleia usam um sonar. No caso de Lila, era assim também. Via com a intuição, ouvia com o coração. Era só chegar. Um dia, sozinha, sentada na grama, alguém apareceu e puxou conversa. Lila não saberia distinguir o que ou quem estaria ali. Como não ouvia bem, consentia, com a cabeça pesada que tinha. Toda mulher tem um sonho, bobo, íntimo, mas um sonho. O da garota peixe era chorar, um fato sobre ela que ninguém conhecia. Mas era feliz, muito feliz. Tão feliz que precisava desaguar as emoções, mas era impossível. Presos na redoma, giravam e regressavam para a caverna de onde tinham saído.  O borrão de gente à sua frente, viu além das borbolhas, que gradualmente mostravam grandes olhos castanhos desconectados com o mundo de fora. Até àquele momento.  Ficaram amigos, descobriram, à sua maneira, muitas coisas em comum, mesmo não usando palavras produzidas. E a paixão cresceu.  De tudo que uma pessoa diz, oitenta por cento não sai de sua boca. Oitenta por cento é bom. Mas o beijo? Os lábios tremiam, queriam e tremiam… talvez de frio? Talvez… Quando duas pessoas, não por vontade, mas por necessidade, decidem ficar juntas, nasce um jeito novo de sentir. Uma partitura física para dois, como um jantar romântico. Lila gostava muito daquela companhia. Gostava tanto, que um dia os lábios não resistiram e sentiram o momento. Era hora de protestar. Sentindo a iminência de perda, moveram-se.  A voz de Lila demandava a passagem. Era forte. Trazia metal afiado na ponta. Uma vibração. Rachaduras explodiram cristais  reluzentes.  A liberdade tinha os ombros molhados. A água escorria em fuga desesperada, evaporou de calor. Os cabelos dançaram, naturais, soltos, voavam sem direção. E o sol, ansioso pela primeira vez, tocou o rosto desprotegido de Lila, antes mesmo que o borrão se revelasse gente.