Pyu tinha os olhos fechadinhos, andava saltitando pela casa grande onde a Bó morava. – Ele é novinho ainda, vejam. Não consegue nem falar vovó. As velhinhas, que também moravam ali, sempre tinham um comentário agradável sobre o netinho da amiga. – Dona Abigail, hoje aprendi a fazer uma borboleta. A senhora quer? Dona Abigail balançou o ‘origami’ e fazia um barulho de vento entre as gengivas. – E o meu bichinho? – Eu também aceitaria, rapazinho. Ao longe, de costas, estava Bó. Que não ouvia a algazarra que atrasava o neto. A cadeira de rodas se moveu bem devagar acordando a senhorinha que já dormia novamente. – Bó. Cheguei. As mãos do menino comunicaram a mensagem. Ela agradeceu balbuciando em silêncio e agradecendo a visita. – Bó, eu estou aprendendo a fazer origami. Puxou do bolso de trás uma flor amassada. Redobrou umas pontas e a rosa estava erguida e entregue. “Pyu, a vovó adorou” os gestos diziam. – Já vou indo. Um beijo, Bó. O menino voltara muitas vezes. Com o tempo, as admiradoras diminuíram. A varanda foi ficando vazia. O papel sobrava e não pediam mais por bichinhos. Quem estava lá ganhava o dobro, o triplo, se enchiam de cor e formas. Um dia, a cadeira de Bó se tornou uma cadeira vazia no fundo do quintal. O menino, que já era um rapazinho, não voltou. Tempos depois, duas senhoras ouviram o portão ranger. O garoto voltou envergonhado, chutando uns matinhos, olhando para o chão. – Vocês me perdoem, eu andava muito triste. – Meu filho, mas é claro que perdoamos. Sua vó era nossa amiga também. Todos sentimos muitos. A mão fina alcançou o rosto de Pyu. O menino olhou para dona Abigail. – A senhora quer ser minha Bó agora? – “Bó” só vai haver uma… mas eu posso ser a Vó Biga. Passa cá essa rosa linda. A varanda voltou a se colorir. Sentindo inveja do papel, as plantas do quintal, tão verdadeiras quanto o amor daquelas senhoras, abriram-se em flor.
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PYU E BO. 06.02.2020
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