037
037. PYU E BO. 06.02.2020 037

Pyu tinha os olhos fechadinhos, andava saltitando pela casa grande onde a Bó morava.    – Ele é novinho ainda, vejam. Não consegue nem falar vovó.   As velhinhas, que também moravam ali, sempre tinham um comentário agradável sobre o netinho da amiga.    – Dona Abigail, hoje aprendi a fazer uma borboleta. A senhora quer?    Dona Abigail balançou o ‘origami’ e fazia um barulho de vento entre as gengivas.    – E o meu bichinho? – Eu também aceitaria, rapazinho.    Ao longe, de costas, estava Bó. Que não ouvia a algazarra que atrasava o neto.   A cadeira de rodas se moveu bem devagar acordando a senhorinha que já dormia novamente.    – Bó. Cheguei.    As mãos do menino comunicaram a mensagem. Ela agradeceu balbuciando em silêncio e agradecendo a visita.    – Bó, eu estou aprendendo a fazer origami.    Puxou do bolso de trás uma flor amassada. Redobrou umas pontas e a rosa estava erguida e entregue. “Pyu, a vovó adorou” os gestos diziam.    – Já vou indo. Um beijo, Bó.    O menino voltara muitas vezes. Com o tempo, as admiradoras diminuíram. A varanda foi ficando vazia. O papel sobrava e não pediam mais por bichinhos. Quem estava lá ganhava o dobro, o triplo, se enchiam de cor e formas.    Um dia, a cadeira de Bó se tornou uma cadeira vazia no fundo do quintal. O menino, que já era um rapazinho, não voltou.    Tempos depois, duas senhoras ouviram o portão ranger. O garoto voltou envergonhado, chutando uns matinhos, olhando para o chão.    – Vocês me perdoem, eu andava muito triste.  – Meu filho, mas é claro que perdoamos. Sua vó era nossa amiga também. Todos sentimos muitos.    A mão fina alcançou o rosto de Pyu. O menino olhou para dona Abigail.    – A senhora quer ser minha Bó agora? – “Bó” só vai haver uma… mas eu posso ser a Vó Biga. Passa cá essa rosa linda.    A varanda voltou a se colorir. Sentindo inveja do papel, as plantas do quintal, tão verdadeiras quanto o amor daquelas senhoras, abriram-se em flor.