A natureza selvagem insistia em avançar. Ataques severos contra o castelo do Rei Lartel preocupavam. O povo, sitiado nas muralhas do vilarejo, organizou um grupo de guerreiros. Sairiam em batalha contra o mal. – A guarda do Rei está protegendo a todos. Por que sair? – Senhora, não temos exércitos, somos comerciantes. Se o dragão entrar, ou as fadas negras, ou até mesmo a serpente de mil presas, estaremos mortos. Precisamos criar um regimento próprio. – E como vamos nos chamar? Abaixaram-se instintivamente, o portão estremeceu. Aguardavam pelo segundo golpe. – Que tal: “Guarda Popular de Galardoom”? – Não, muito parecido. Ele irá nos perseguir e exigir nossos homens. Seremos rapidamente desmantelados pela coroa. Outro golpe. A poeira, entre as pedras da muralha, desciam como cascavéis chacoalhando. – “Os Paladinos do Castelo De Prata”? – Muito composto. Mais alguém? Precisamos iniciar a seleção e treinamento. – Não, só mais esse, Milord: “Tropa de Aço”. Dessa vez parecia mesmo que as muralhas desabariam sobre os homens. As esposas estavam debaixo das mesas nas tabernas. Crianças procuravam pelas mulheres, quaisquer que fossem. Corriam em zigue-zague. – Não gostei, mas vamos usar essa por enquanto. Afinal, somos ferreiros. – Eu sou alfaiate. Os homens treinaram duro. Finalmente, conseguiram armar-se sob a vista do temido Lartel. Lanças sob as bainhas. Instrumentos dobráveis, armaduras por debaixo do tecido grosso. Espadas do tamanho exato das costas. Tudo secretamente organizado e administrado. – Gostaram? – E não é que ele é alfaiate dos bons. Um novo ataque começou. Os portões, enfraquecidos, faziam um barulho ainda mais devastador. – Vamos homens… – Parem! A figura seguia na direção oposta, enfrentando o exército. Não temia o monstro atrás de si. – Que és tu, lânguido rapaz? – Meu nome é Grendah Lartel. – A filha do Rei. – É a princesa. – Não pode ser. Ela não está no castelo. – Homens, escutem bem. – Não ouçam. Como pode provar que é a princesa? O sangue azul repuxava a terra, secando as gotas aos pés da multidão. A pequena espada foi descoberta. O soldado apalpava as próprias costas em busca de defender-se. Estava desarmado. – Se és mesmo quem diz ser, por que está aqui? O povo, que deveria avançar em frente, infiltrou-se no castelo. Destronou o pai da nova soldado de aço. Juntos, mataram os monstros com a besta de ferro. Construída secretamente com a força e o minério do povo. – Ele nos enganou. Roubou nosso trabalho e nos trouxe medo e desolação. – Poderia ter nos protegido. Nossas mulheres sofreram por medo e angústia. A princesa, que os ensinou a olhar para trás, liderava o futuro. A nova ordem era de equilibrar a voracidade da natureza. A inteligência estratégica substituiu a força e o horror. No reinado da Rainha Grendah, quimeras viviam em harmonia com aldeões. O povo integrado, de portões abertos, como sempre deveria ter sido. A saúde geral era monitorada pelas fadas. Negras por falta de magia, usurpadas. Com o passar dos dias tornavam-se vivazes e luminescentes. Cores lindas. – Mandou me chamar, Majestade? – Rhon, um dia confiou em mim… Agora preciso confiar em ti. – O que for preciso, rainha Grendah. – Derrube as muralhas. Sem barreiras. Que tal lhe parece? – Rainha… me permita a palavra? – Pois fale, homem. – Vossa Majestade um dia nos alforriou de nosso próprio medo. E somos eternamente gratos por, ao invés de olhar para frente, planejar um passo atrás, portanto, se é isso que desejas… não cabe a mim questionar. Quando acordar em sua torre, em uma semana, não verá nada em volta, além de um povo livre. Outra vez. – Muito obrigada! – Mas o que faremos com a serpente de mil presas? A rainha terminou o gole de vinho e sorriu para o pobre homem de olhar assustado. Esperava ansioso pela resposta. – Capitão, a tal serpente de mil garras… – Presas, vossa alteza… – … Ela nunca existiu.
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NADA EM VOLTA. 01.03.2020
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