Quando a vida, apenas, não é suficiente, eu saio. Preciso tomar emprestado um pouco de energia extra, alheia. Pego carona em um olhar. Aceno para um desconhecido. – Bom dia, moça. Nem olhou na minha cara. Será que não somos todos parentes? Quem começou essa história toda. O primeiro homem. O que ele queria? Para quem pedia? Infelizmente, o lance todo começou entre família, não é possível. Outro dia mesmo eu ouvi dizer que o meu peixe muda de sexo. Se intromete e altera a própria genética. Eu achei isso sensacional. – Vou ver o que tem lá fora. Meu deus que solidão. Opa, acho que inventei uma palavra. Vou inventar mais algumas. E vou parir. Terei com quem conversar. Ei, garoto já ouviu falar de deus? – Vou escrever isso em maiúsculas: “Deus”. Melhor. Gênese da problemática humana. Questão fundamental. Por que estamos aqui? – Tenho mais algumas palavras que gostaria de inventar: mequetrefe. salamaleque, piripaque – essa vai pegar, siricutico, blasfêmia, porra. Penso que estou tendo um faniquito… Queria que alguém visse isso. Eu estou hilário. Meu Deus! mas eu não paro de inventar palavras. Deus quem é mesmo? Deve ser a força do hábito, preciso parar de inventar tanto. E assim chegamos até aqui. Compro palavras de um velho que fica aqui na esquina. Ele diz coisas sobre a revolução constitucionalista de trinta e dois. Eu pago com meu tempo. É um escambo honesto: ele me aluga os ouvidos, eu recolho os verbos e volto para casa. Não tenho aprendido tanto com ele. Se tornou repetitivo, mas não dá para largar o vovô. Outro dia levei uma bala e ele riu. Foi assim que começou, inclusive. Com um sorriso. – Mas que zunzunzum é esse na porta da minha caverna? Caralho, inventei mais uma. Eu preciso de mais gente, ou vou esquecer dessas palavras engraçadas. Vou usar o sujeito pronome oculto. De agora em diante, “Eu” não existe mais. Somos todos um só… Ei, inventei você. Vou te mostrar como se faz. Pronto, agora me dê a criança. Mostrar os dentes é uma ótima maneira de dizer que somos iguais. Um pouco dos ossos para identificar que somos feitos da mesma composição. Tudo que tem carbono é parte do feixe de luz divino. Desmontar os penteados, e limpar a maquiagem, e tá ótimo. Sorrir não é uma grande engenharia. Basta levantar alguns músculos da face e está feito. O mendigo que mora na esquina, também não estão em seu estado ideal. Sujeira é a maquiagem da miséria. Também esconde a dor, a fome, a vergonha. A não ser que tenha uma ótima oferenda, não sugira o banho. Penso que seria crueldade. Decência é um pré-requisito para caninos, molares um, dois, três. Limpeza está na constituição. – Essa criança é muito feia. Jogue-a do… Me dê uma palavra para isso aqui. Penhasco está ótimo. Na nossa caverna ela não entra. O médico me disse que eu precisava me “alimentar” de sol pela manhã, ao menos, uns quinze minutos. Estiquei esse tempo para uns cinquenta minutos. Daí fica assim: o sol se alimente de mim, eu agradeço pela vitamina D e, incontrolavelmente, engulo cada um que passa. Com a violência de quem almoça sozinho. Pego tudo, jeito, palavras, gestos. Tudo, tudo. Oswald de Andrade ficaria admirado ao ver o meu movimento antropofágico no calçadão. A sobremesa é o velho ultranacionalista. Século vinte e um é uma flatulência desenfreada, cheio de bolhas fedorentas. Meus pés voltam feito o Abaporu. Em casa ponho as pernas para o ar. Sinto a febre de quem cometeu inúmeros assassinatos em nome da arte. Depois sou julgado por crimes que eu não cometi. Mas assumo. Um dia, eu finalmente encontre o caminho de volta para a caverna. A busca também é parte da jornada.
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FORA DE CASA. 02.03.2020
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