Aumentei o som, como fazem nos filmes. Tentei não pensar em mim, em nós. É hora de fitar o perigo com o disfarce do blefe. Se duas pessoas olham para a mesma direção, enquanto todos fecham os olhos, ou não olham para lugar algum… não se trata de um aperto de mãos. Estou deixando esse lugar, essa cidade, fevereiro. Não posso olhar para trás. Se eu pudesse, aumentaria o som até meus ouvidos explodirem. Não quero levar comigo o som de sua voz. – Você pode ser a minha cura? – Só o que eu faço é machucar. Eu entrego tudo que guardei até hoje. Ponha suas mãos no meu peito. Vou fazer você sentir isso também. Seu beijo é uma prece tocando minha alma. Vou dirigir a noite toda pensando nisso: me peça qualquer coisa, e eu darei. Comece fechando os olhos, vou limpar sua mente com tudo que tenho de bom. Em troca, apenas respire. Me deixe sentir seu hálito sádico. – Vem comigo? – Eu ainda posso salvar a nós dois. – Não faça isso… Não podemos fazer aniversário. Não hoje. Isso não pode ser uma data especial. Imediatamente após já ter acontecido, já me arrependo. Se sentir raiva, irritação, eu quero estar lá com você. Acordar e ser um bálsamo. Derroto a todos, protejo seus sonhos. Construiremos isso juntos. Recolha meus pedaços, vou precisar de todos os cacos por você. Tenho uma vida inteira ao seu lado. Eu escolho você. – Nunca vamos quebrar isso. – Serei paciente, até o fim dos tempos. Eu escolhi sem saber. Sem poder fazer parte disso. Eu, subjetivo, escondo tudo por trás do olhar, na minha versão infinita, escura. Na festa, na sala, à mesa, ninguém nunca saberá. Só eu e você. Até o ano que vem. Estou indo. Não seria suficiente. Continue agindo como se tivesse sendo divertido. Nada no mundo será parecido, nenhum objeto no mundo salvaria você. Eu acho que perguntei, mas fugi antes de ouvir-te. Fevereiro é uma doença mental que ninguém está preparado para admitir ou manter-se no jogo. Estou fugindo e, como sempre, a mala volta mais pesada. Carrego um monólito para esculpir. Gasolina extra para cumprir a epopeia. Fecho meus olhos. Seguro forte o volante. Tanto faz a direção. – Pegue a minha mão, por favor… – Não vá assim… O dia que não começou, não pode registrar algo que nunca aconteceu. Um mundo inteiro desapareceu e ninguém soube. Um instante envolto infinitamente em mistério. Não pude controlar meu plano de manter-me lúcido e indiferente. Estou levando o Kraken amarrado no banco de trás. Essa quarta não vai terminar em cinzas, não para você. Um homem desesperado nunca vai parar até os dois caírem do precipício… se não agora, muito em breve. – Eu espero você. – E você me espera.
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FEVEREIRO. 29.02.2020
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