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333. MORESCHI. 28.11.2020 333

A moça do outro lado da rua abaixou os óculos. O motivo de sua curiosidade possivelmente seria o carro parado na esquina. Os dois homens tinham a descrição informada na primeira página: caucasianos, quase idênticos, corte de cabelo peculiar e maleta em couro. O pequeno instante entre acelerar e frear o carro era o sinal esperado, como se o motorista tivesse desistido de arrancar. A moça levou o dedo indicador à orelha. – São eles. Me reconecta cinco minutos antes. Preciso do áudio no carro. Rápido! Pela expressão, parecia assustador. Um rapaz que se aproximava desistiu de sentar-se. Deixou Kandra sozinha no balcão de frente para a rua. Com a coluna ereta e uma das mãos na vidraça, fechou os olhos. – É assustador. Não parece ser a voz de uma mulher, tampouco de um homem ou criança. O estalo, o sobressalto. Os dois rapazes reaparecem um instante antes. O carro estaciona no mesmo lugar, pela segunda ou terceira vez. – Dejavi! Tragam os outros. Precisamos da maleta. – “ELL, LiHouse e Guns conectados. Kandra, localização?” A polícia já tratava o caso como uma possível rede de pedofilia. Dois homens, roupa social, óculos escuros e um corte de cabelo peculiar visitando constantemente filias da renomada escola de canto Cavaliere. Segundo imagens fornecidas à imprensa, tiravam fotos, observavam e saíam sem cometer nenhum ato ilegal. – Esperem, ele vai tocar mais uma vez. – Que merda é essa, Kam? Puta merda… – Como? Como é possível? – Agora vocês já sabem o motivo. Precisamos daquela maleta. – Os dois? – Tudo o que importa é a droga da pasta, Guns. Para a mídia, o carro dos suspeitos sofreu uma autocombustão matando os dois ocupantes. Um caso sem solução. – Então eles usavam uma gravação para saltar pela simulação? – Não, Guns, ela já explicou. Eles acessavam outras versões. – Isso quer dizer… que existem outras simulações, Kandra? – Exatamente. A chave é este programa Castrati. – Não deletaram versões anteriores. Se sobrepõe… – Simultaneamente.