Sendo um especialista em ideias gerais, posso concluir que tudo conspira contra a atividade do escritor. Primeiro que não se escolhe, o ofício de escritor desce como uma sentença de guilhotina. Aí daquele que não cumprimentar os sussurros que se acumulam atrás de portas, debaixo de roupas dobradas, que não sentir a ervilha no colchão. Chega a ser um crime de covardia a ideia de não conseguir escrever por motivos banais. Diante dos fatos, me permito assumir que a mentira é um excelente subterfúgio, estratagema, tocaia de espingarda para que se consiga dar cabo da tarefa de criar linhas razoáveis, bocados literários. Não compreendo a realidade tal qual se apresenta, suspeito, tampouco penso acompanhar amigos de intelecto perspicaz. Se quer me conhecer, que o faça de longe. De perto, sou uma cortina de várias camadas. Ninguém pode me salvar. Minha única opção é gostar do que vejo; abraçar o mal pela cintura e sentar a bunda na cadeira cometendo gestos promíscuos. É uma dança em posição de repartição. É um bacanal de costas para a igreja. Uma vergonha incomparável. A pessoa que lanças seus escritos pelo tubo de sucção do futuro o faz na coragem de quem vence o medo atirando e indo para o ataque. Somos aquele na trincheira, pronto para tudo e nada. Escrever é um método inventado de se ajustar um sarrafo – é o estar suspenso antes do mergulho. Eu decido a mão direita do rei. Vaga ideia de um nunca serei. Afortunado e incapaz. Um mentecapto com um pé atrás.
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MENTECAPTO. 22.12.2020
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