Um evento, dessa magnitude, e nós sob uma lage. Encanamento, malhas de concreto, mais pessoas e telhado. A cama em que durmo está posicionada para o intervalo entre prédios que se enfileiram abrindo clareira de concreto armado. Se olho para o céu, o vejo como um cenário em preto e branco, e a primeira lua do cinema lá: imponente, absoluta, uma diva no firmamento. As estrelas são lantejoulas, glíter, purpurina… O céu foi feito para acabar. Quantos fins convivem vivem lá? Nosso tempo natural da Terra, do embrião, o artificial da máquina, do imbricado convívio digital, fracionado. Coisas acabam e nós nem aí. Mas é que não dá para ver tudo, chorar por tudo, abraçar o mundo. Eu, não sei você, que lê isso aqui, mas, eu, sou um só. Vergo os braços e o que meu dedo médio tocar é limite possível, o resto é poeira intergalática. Dois gigantes gasosos propõe a dança finissecular, retornam. Conjunção astronômica parece uma cifra da gramática, porém, acontece mais do que ouvimos. Lá é outro calendário, outro assunto. Talvez, nem nos percebam, ou, talvez, riam dos pequenos estalinhos atômicos, espinhas numa puberdade terrestre. A face escura da lua não se mostra, receio de entregar completamente sua devoção. Já fincamos o mastro, deixamos pistas, sem nos apresentarmos apropriadamente. Incidentes diplomáticos… Ah! Auguste e Luis e a lua… Quero estar na próxima orgia gasosa-pansexual-planetária, posto que confio na ciência. É o ano de confiar! Se não posso crer em mim mesmo, delego a função a outrem. O mesmo digo aos telescópios, aos computadores, às lentes subatômicas, não me venham com representações. Tenho os olhos nus para que eu mesmo possa avaliar. Estarei velho, curado da morte e desejando que um astro inatingível possa, então, me levar. Quero o oposto da paixão, quero, digo, quererei, enfim, descansar.
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MEIA CURA. 21.12.2020
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