– Tá pronta? – Claro. Mentira. Não estou. – Meninas, vocês esqueceram a mochila. – Eu disse. Não estou pronta… Obrigada, mãe. O livro “On The Road” escorregava para fora da mochila no banco de trás do carro alugado. Britney Spears seduzia os alto-falantes. – E quando vamos fazer nossa primeira parada? – Eu não sei. Vamos primeiro arrancar com o carro. – É verdade. Revezaram algumas vezes o volante. Ao final do dia, pararam em um hotel isolado. Escolha deliberada de duas aspirantes a escritoras. – Pega tudo. Vamos encontrar o “Norman Bates”. – Boa noite, jovens. – Boa noite, gostaríamos do quarto número um, por favor. – Claro, e qual nome devo registrar? Como assim “deve registrar”? As duas se olharam e se entenderam sem prolongar as sobrancelhas alteradas. – Thelma. – E o seu, moça? – Louise. Louise Elizabeth Sawyer. Procuravam por câmeras escondidas nos armários. Levantaram a cortina. A lanterna foi apontada para o espelho. – Eu vi isso em outro filme. Não “Thelma e Louise”… outro. – Chega, vem aqui. Olha o teto. Você acha que um dia a gente vai envelhecer? – Não. Vamos congelar nossas cabeças e esperar que eles não destruam o planeta. – É isso que eu amo em você, amiga. – O quê? Meu senso de humor irônico? – Também, mas você me entende. O mundo lá fora parece não ter solução, no entanto, você tirou uma semana de folga para fazer nada comigo. – Eu prometi a você. Quando tirasse a carta de motorista, faríamos essa viagem. Eu ajudei a pagar essa merda. Pega a garrafa. A chuva estrondosa acordou “Thelma”. – “Louise”, você não vai acreditar: está chovendo lá fora. – Você tá falando sério? As toalhas jogadas no chão. O amendoim embebido de água de chuva no carpete. O vapor do banheiro umedeceu a taça no chão. Gotas deslizavam pelo cristal. – Se este fosse o nosso filme qual seria o nome? Vai. – Não mira isso em mim, vai entrar água no meu nariz… Deixa eu pensar… – Você não sabe pensar rápido. – Quem decidiu onde esconder o corpo do recepcionista? – Não vale. Você já viu “Psicose” um milhão de vezes. – Ainda bem que isso é só um jogo. – É… claro, só um jogo. Me dá um instante? Volto já. O álbum inteiro tocou e o silêncio chamava pela amiga. Ao passar pelo carpete, a mancha se tornou negra outra vez. O nó da toalha entre as mãos, Ágata, ou “Louise” abria a cortina. O porta-malas fechando assustou a garota dentro do quarto. Um passo para trás e o sangue tingia os tacos de madeira. – Que droga. – “Louise”, abre aí. – Só um instante. Aguenta aí. Me cortei com a taça. – Abre logo isso, por favor. Merda. Merda. Merda. – Só um momento… ** – Você acredita que ela pegou primeiro o recepcionista e depois a garota? – Não, a vítima número dois escorregou no próprio sangue. Foi um acidente. – E o que vamos fazer? – Vamos dar prosseguimento. Me deixe sozinho com a garota. Traga ela aqui. – Mas inspetor… – Eu disse, não disse? Estou aguardando. ** – Você sabe que não vai receber por essa bagunça, não é? – Como é que é, seu… seu ridículo? Sabe o que foi aguentar a ladainha dessa mimada viciada em livro, cinema? – Eu não sei, não vou saber e você será acusada por apenas um homicídio. O dinheiro será enviado para sua conta. Apenas o necessário. Para que você não abra essa boquinha linda que você usa para contar mentirinhas por aí. – Bota esse dedo pra lá, seu porco. Eu não serei presa, eu não tive culpa. – Isso quem decide é o chefe. E você deixou a filha dele morrer logo quando precisava, apenas, entregar ela para nós. – Merda. Merda, merda, merda. – Eu disse a ele: “não se meta com essas delinquentes juvenis”… É o maior dos clichês. Vocês, sempre, metem os pés pelas mãos.
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MELHORES AMIGAS. 25.02.2020
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