Vagner andava pela rua despreocupado. Atravessou na faixa, acenou para o amigo que almoçava. Afrouxou o nó. O suor desceu pelo pescoço e molhou a gola e a gravata. A rua estava tomada de gente diferente. Era verão, a cidade troca de pele – assim como os turistas descascam o couro, no exagero de apenas quatro dias de carnaval. – Ei, Vaguinho. – Fala, Catita. – Tu vai querer o adicional hoje? – Ih! Moça, eu… eu parei com isso. – Mas olha como eu tô bronzeada. Tô impossível de negar. Sobe rapidinho, você ainda tem vinte minutos. O andar de cima da lanchonete havia sido desativado pela vigilância. Mas as poltronas acolchoadas permaneciam lá, esperando por eles mais uma vez. – Atrasado? – Imagina, seu Braga. Eu estava na portaria. Aqui, ó. Para o senhor. – Hum… Obrigado, pode deixar aí. Estão no nome da minha esposa… Esse cara me olha de um jeito. O escritório dava de frente para o centro comercial. Podia-se ver as outras garçonetes se arrumarem da janela do banheiro, Cátia, inclusive. – Vaguinho, hoje a noite o pessoal vai se encontrar naquele bar novo ali, ó. Vem com a gente? – Fecha essa persiana, Gusmão. Tá calor lá fora. Eu vou, eu vou. As luzes dos escritórios ao redor estavam todas apagadas. Dentro da nova boate “Outsider”, cabeças verdes, azuis, rosas, amarelas dividiam o salão. Garçonetes deslizando de patins entre os convidados. – Luz neon é muito anos oitenta né não. – É… – Os rapazes vão querer alguma coisa ou vão só admirar minha beleza? Liana, vou servir vocês. – Fala você, Vaguin. – É. Oi! Sim, vou querer… hum? Hum! Vou querer este aqui. Duas doses. – Anotado. Beijinhos. Os dentes do amigo ficavam ainda mais horrorosos sob a luz negra. No palco, garotas desfilavam, desciam e subiam novamente. – E aqui vão vocês. Que tal? Sabor novo. Vocês estavam precisando de algum frescor por aqui. Estou errada? – Não, não. Corretíssima, moça, delicioso. – Ótimo. – Gusmão, você é impagável. – Eu posso ser, mas essas garotas… Aposto que são caras. A noite foi alegre, doce como as bebidas e os perfumes. Ao final, Liana entregou um cartão ao rapaz. – Você já sabe onde me encontrar. Vista-se, meu bem. – E aí, como foi… – Igual… Estranhamente igual. – … Cara, eu daria tudo para estar em seu lugar… Glória me mata se souber que estou aqui contigo. Na semana seguinte, de banho tomado e preparado, Vagner voltou à boate “Outsider”. Subiu para o mesmo quarto, com a mesma garota. Desceu com a mão na gravata. – E aí, Vagner. – Cátia? … Você aqui? Alguns degraus, atrás do executivo, vinha Liana sorrindo para os dois parados na escada. – Oi, Cátia. Como está sendo o primeiro dia? – Oi, irmãzinha. Está sendo ótimo. Pelo visto, ensinei tudo o que você precisava. – Vocês duas… sério isso? – Você não acha que eu ia tirar “aquilo” do nada, sozinha. Minha irmã me contava de vocês… Estamos contratando, então… juntei o desejo com a vontade de comer. E você, gostou? – Eu… do quê? – “Aquilo” ué? Agradeça à Cátia. Ela está saindo por aquela porta agora mesmo. Beijinhos, amor. Ah! O “adicional”… é por conta da casa. Com licença.
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ADICIONAL. 24.02.2020
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