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057. 567. 26.02.2020 057

Pode ser um gesto simples, como enfiar o dedo indicador em uma das narinas. Alguém pode ligar com uma surpresa. Gosto quando alguém é surpreendido com uma ligação. Demonstrações de irritabilidade também servem, mas estragam meu dia.  Qualquer que seja o movimento, me interessa. Em algum dia, no passado, vi um documentário. A imagem mostrava dois blocos de gelo colidindo. A cena era antagônica. A natureza corrigindo o curso. Castigando os agentes. E no meio do horror, a beleza. É isso que eu preciso. Quero saber o que acontece quando dois blocos de gelo se chocam. O calor que o atrito gera. Que emoções não programadas surgem. Somos blocos de gelo deslizando na esteira desse aeroporto.  – Senhora, a sua mala já está pronta.  – Ah! Obrigada, estava distraída…   Ele tocou a orelha de um jeito tão fofo. E essa senhora, toda atrapalhada em tirar a mala do carrinho.  – Alô? Oi, Maria. Não, está tudo certo. Pode deixar pronto para segunda.  Maria é minha empregada. Eu a contratei imediatamente. Ela tinha um jeito de olhar quando não entendia. Era só dela. Ingênua e um pouco perdida. Gente meio avoada é de confiança. Acertei precisamente: ela faz o melhor risoto que eu já comi. E nunca precisei contar os talheres. – Oi, Gabriel. Já estou indo sim, volto em dois dias. Maria deixou tudo pronto. Beijos, amor.  Não me apaixonei de cara pelo meu marido. Ele me irritava no estágio. Tinha umas manias com a cabeça. Mas, um dia, ele fez um movimento meio brusco e virou-se imediatamente para verificar se alguém tinha percebido. Me encantei. Meus filhos são bem espontâneos, mas acho que é coisa da idade, são novinhos ainda. Quando vou buscá-los na escola, eu vejo como os outros pais são icebergs. Grandes cristais gelados que dirigem, que fazem compras do mês. Os olhos se perdem na baixa temperatura. Esquifes fúnebres lindas por fora. Fico imaginando essas pessoas “fazendo amor” e a água descendo escada abaixo. Molhando o tapete. Os brinquedos das crianças boiando no líquido gelado. O fedor de mofo. Depois escorregam no próprio fluido. Um desastre.  – Oi, Boss. Claro. Imagina… Envio a matéria para o senhor assim que terminar de redigir… a-han. Hum-hum. Tá! você quem manda.  Trabalho na mesma revista há alguns anos. No dia da minha entrevista, eu disse que não tinha experiência, mas meu chefe – não esse, o anterior – disse que tinha algo em mim que o encantava. Eu não acreditei muito. Ainda mais depois dos escândalos envolvendo seu nome. Foram mais nove jornalistas. Mas ele disse que eu era especial. Algo em mim era espontâneo. Sei lá, devemos estar todos conectados de alguma forma. Se não fosse por ele, eu não estaria indo para esse congresso. Se não fosse por ele, a minha busca pela verdade nas pessoas talvez não passasse de um jogo. Desculpas não aceitas, mas obrigado por isso.  – Alô. Quem? Sério? Claro… tenho sim. Estou indo, inclusive. Eu quem agradece. Obrigada, muito obrigada.  Se tiver outra pessoa igual a mim na sala de embarque, serei eu a observada. Meu movimento espontâneo. Conseguiu a entrevista mais quente do ano. Tomara que alguém perceba como estou eufórica. Seria ótimo saber que outro ser humano também quebrou sua própria geleira.