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115. BARAO. 24.04.2020 115

Novidade é um evento que não pede muita licença. Vai chegando, se instalando e, quando todos se dão conta, tá lá dona Maria e os três. Quatro, o porco também contava. Mas, uma outra coisa, nunca vista por aquelas bandas, era o negócio de ficar preso dentro de casa.  – Que vamos fazer com o porco, Maria? – Vamo ter que matar, João. Vai afiar a faca.  – Eu não mato bicho. Vai você, Adalberto.   – Só mato galinha. As que sobraram, fugiru. Severino já matou um, vai ele.  – Não fui eu, foi uma cobra, confesso. E era uma porca. Coitada da bicha. – Nóis tamo tudo igual a finada, se sair, nois morre.  Dona maria virou as costas e foi em busca do facão. O Sítio da Coruja já não podia vender o queijo. Os ovos, foram embora dentro das galinhas. O porco era a única coisa que havia sobrado do mundo antigo, antes da notícia da tevê, antes dos clientes ligarem.  – O nome dele é Barão, Maria.  – Desde quando? – Batizemo ele onti.  – E porco batizado não pode ser matado.  – E quem foi que falou isso, homi? – O padre, ele fez o batismo pelo telefone do João.  – Vocês três tão me dizendo que foram lá, sem a guarda saber, e não voltaram com as parte do bicho. Quede certidão? – Certidão não tem, mas é a palavra do padre que vale. A gente só tá contando proce. Se não acreditá, manda um zap pra capela. Comeram queijo por semanas. Até o último pedaço ser disputado por quatro famintos por qualquer outra coisa que não fosse feito de leite. Ninguém admitia, mas, nesses tempos, até ligar para ex tinha gente ligando por carência. As mulheres da paróquia criaram um grupo. Compartilhavam cada notícia cabeluda que deixa o povo mais medroso ainda, trancados dentro de casa.  – Fofoca “onlaine”, espia Dalberto, Severino. – Cê tá nesse grupo, Maria?  – Eu tô no grupo dos desesperado. Bora lá matar o porco e acabar com essa chateação.  – Eu não vou.  – Nem eu.  – Num arredo o pé tamém.  Maria saiu com passo apertado até o chiqueiro, do outro lado da rua que abriram para os carros da prefeitura passarem com gente morta. Meia hora depois, voltou com a cabeça do bicho e uma bacia cheia de vísceras.  – Ave Maria, Maria. Ocê mato o Barão… Nois vai todo mundo pru inferno.  – Crein Deus pai… Que que a igreja vai pensá?   O outro fez o sinal da cruz.  – Ocês deixa de ser irritante, que o bicho tava morto quando eu cheguei. Gordo desse jeito pra morrer de fome… Ocês três não valia a alma desse porco bão que eu tinha.  – Será que ela tá falando a verdade, Jão? – Maria num é de mentir, Dalberto… Defende os três marido pra vila toda. Nois podia ser só primo, amigo…  Sentado na porta, estava Severino. O mais velho dos maridos da matadora de porcos batizados. O homem levantou-se de sopetão, puxou as calças até o suvaco e tirou todo o ar dos pulmões:  – Das duas uma, ou o Barão morreu pra nos salvar, o que é um gesto nobre… ou a Maria mentiu pra nois. Mas a fome é a senhora de todas as medidas, então vamos ajudar a limpar.  Maria foi lavar as mãos enquanto os três se despediam com orações e agradecimentos.   – Homem é tudo besta mermo. Esse bicho sem benção me custou as economia, mas meu porco batizado ninguém toca. Amanhã mermo trago ele pra dormir comigo. Alguém nessa casa vai ter que sair. Os três que se matem pra decidir.