Bateu a porta e mergulhou na escuridão. Seguiu por ruas vazias, molhadas, amplas. O calor fritava os olhos. Mandíbula dura. “Se eu tiver morto tá tudo confessado, fui eu mermo. Fala po coroa que agradeço por tudo o que ele fez por mim”. A mão que acelera é a mesma que entrega pacote, cuzão. Passei mil grau pela cancela sem neurose. A madeira varou o pescoço do segurança. Segui reto. Subi pela direita, já sabia o caminho. Debaixo do viaduto dá pra treinar várias manobras e postar no YouTube. O canal tava bombando, que raiva. A mais famosa era a “Superman Sem Capa”. Larguei a moto no meio da sala do cara. Tudo fodido. Mesa de centro tava acuada no canto. Quebrei a casa. A luz da escada acendeu. O gordão desceu com cara de bundão. Nem perguntei se tava lembrado de mim. Passei a faca no suvaco do cara e vi ele sangrar igual porco, implorando pra não matar ele. Me assustei com a porra da tia vindo da cozinha. Um balaço no meio da testa. Eu falei pro J. que essa porra eu não sabia usar, mas o cara ficou só o ódio quando soube o que aconteceu hoje. Primeira vez que falou comigo. Aquela merda toda no jornal. A mulher do ricasso otário era mó gata, nem fiz nada. Ela que desmaiou e bateu a porra da testa no primeiro degrau e veio deslizando igual sardinha na esteira. Eu ri pra caralho. Tio, não é nada pessoal, tá ligado? Mas nóis tá cansadão de ser tratado que nem bosta, sem ofensa. Cê merece mermo é isso aqui, ó. Eu tinha visto isso num filme. A ponta da lâmina entrou na gelatina. O nóia já tava apagadão. Peguei a moto e passei por cima de todo aquele lixo na saída. A latinha no microondas terminou o serviço. Só vi o cogumelo subindo pra dispersar os segurança. E a fuga? ahn, suave. Meti a frente na obra e vazei, irmão. Não volto mais pra casa do meu pai. Ele disse que eu tava morto pra ele se eu saísse. Truta, eu tava tão pilhado. Minha cara tava pegando fogo, tá ligado? Falei pro coroa que tá tranquilo. Eu já tinha morrido naquela manhã, só que cabia mais gente no buraco onde fui enterrado.
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LIXO. 07.08.2020
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