Na sala não se dizia uma palavra. Quem chegava, ocupava sua cadeira e aguardava até que o grupo estivesse completo. A tapeçaria indicava a importância da linhagem. O encontro se tornou frequente. O açougueiro, sempre o último a comparecer, dessa vez, aguardava. O cutelo o acompanha desde o último ataque. A funcionária contorcia involuntariamente os dedos. O padre, que não rezaria nada ali, investigou o semblante dos membros do séquito. O jardineiro terminou seu último dia de luto na companhia dos confrades. O romance entre ele e a biscoiteira da vila, também presente, era tão sólido quanto a prova do crime. O estrondo agitou o grupo. O delegado sacou a arma. O açougueiro dormia e a faca pesada havia escorregado. – Quem descansaria diante de tais fatos? – O maldito só conseguiu dormir porque se alimentou do sangue dos porcos. – Se esses pobres soubessem de onde vem a carne… – Silêncio! Ainda falta o excelentíssimo… O cutelo foi resgatado para se defender da garota que entrava com o corpo de um homem nos braços. O presunto foi deixado no chão como se um vitelo inteiro fosse entregue ainda quente na casa de carnes. – O prefeito está morto? Na mão esquerda, o eclipse da lua reclamou atenção através do buraco nos tendões. O dia não nasceria ainda. A afilhada percorreu os seios com a mão direita, desceu com vagar até suas pernas. Segurou a ponta do vestido. Observou cada membro na sala com a devida atenção. Apertou a barra, subiu a peça de roupa e exibiu as perfurações em sua coxa. O sangue ainda escorria brilhante e grosso pela aorta femoral. Abriu as narinas. O lábio superior revelou o acordo tácito. – Ela está no comando agora.
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HEBDOMADARIO. 06.08.2020
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