Fora das ruas, se uniram para ajudar a comunidade. Os guerreiros do apocalipse traziam a malha enterrada na bunda, barba rala e muito gloss. As insígnias, as vidas salvas no abrigo do prédio tomado pelas militantes. Toda ajuda vinha de fora, do país. De dentro, só a cabeça enterrada no chão mataria a sede de Beirute, a líder das travestis. Mana, eu fui expulsa da minha cidade por gente igual a ele, pra ser arrasada nessa cidade uó? Égua de ti, viadu. Eu quero ele aqui, aos meus pés. Temos maquiagem e um plano. Trava no talento de atriz e modelo. Nhá! Filha de mãe ausente, foi recolhida na rua antes da ronda passar. A missionária não previu a desgraça entre padre e protegido. Ameaçada, girou a roda dos enjeitados e devolveu à rua o menino ultrajado. Eu não quero ninguém com nome do estrangeiro, tá certo? Eu, só eu que posso. Ou pode caçá rua, que hoje eu não tô boa, gata. Agora sou Beirute, que eu to mesmo é pronta pra explodir. Às cinco, o caminhão chegava ao gramado. As barracas desmontadas pela manhã e os protestos seriam parte do plano. Entraram mulheres, saíram homens. Fardados, se misturaram. Camufladas no ódio do povo, embriagaram-se do último gole de paz. As palavras sangravam na boca, mas a vaidade pagaria em moeda pesada. Os gritos de apoio ao presidente pela boca que chupava o orgulho e cuspia um projeto bem executado. Nós vamos apoiar esse cara, tá certo, meninas? Quero ouvir só a voz de vocês, não importa o quanto a população tente empurrá, xingá. Defendam esse porco, quero ele o mais perto possível. Ele vai ouvir. Faz voz de homem, porra. O segurança pessoal fez piada do peitão do civil vestindo camuflado, gritando o nome do chefe do estado. As vozes engrossaram em quantidade e chegou aos ouvidos do pau-mandado. Cariri, tirou o boné. Os cabelos explodiram em exuberância. O cuspe na cara. Mulher braba. Na primeira oportunidade tentou, ela mesma, sujar as mãos, agora de sangue. O talho era meu! Eu avisei sua mandada. Falsiane, desgraçada. Olha o que tu fez. Não esperou meu sinal, cachorra. Tu roubou minha kill. Calças, jaquetas e bonés fincados, cuspiram no chão. Voltaram para o caminhão, de batom, front lace e alma vingada. O presidente morto e ninguém viu quem foi. Travesti tem um superpoder, mas ninguém sabe qual é. São almas endividadas, invisíveis, nada respeitadas. A poeira levantou, o caminhão acelerou. E povo se comendo na porrada.
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BEIRUTE. 08.08.2020
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