A sensação foi de uma queda bruta. Logo após, tentou fugir sobre uma camada fina de gelo. Sem que fosse possível iniciar a corrida, os passos foram medidos. Todos os pesadelos mesclaram-se ao medo de não se sabe o quê. Imaginou uma sala ampla, como templos japoneses. Pôde sentir o cheiro do verniz e do metal. Todas as armas apontadas. A violência da mente contra a fragilidade do corpo. Ao abrir-se, sentiu o poder do invisível. De olhos fechados, puxou o externo para si. O que era alheio, pertencia. Todos os ruídos sendo identificados, aceitos, filtrados, diminuídos e selecionados. Nunca desligar. Não se tratava de estado de inércia, mas de fluxo contínuo e disputado com harmonia. – Quero que vocês percebam os seus pés. A atenção foi direcionada arbitrariamente, focada. Aos poucos, todos os sentidos ampliaram-se. Contestaram a demora, agradeceram. O corpo acordou. – Vamos saindo bem devagar, abram os olhos e agradeçam pela experiência. Nos vemos na próxima sessão. Muito obrigada. – Vai querer de uva ou morango? … Breno? A namorada parou e encostou no marco da porta. Com as embalagens na mão, aguardando o rapaz tirar os fones de ouvido. Momentos depois: – Achei que ia ficar ouvindo podcast para sempre. Vai querer qual? – Acabei de descobrir que não gosto de gelatina. – Ué! Sempre fiz gelatina no domingo. – Eu mudei. – Eu não, sou perfeita, meu amor. Vou comer tudo sozinha. E você fica aí viajando na maionese. – Só o imperfeito evolui… – Não ouvi. – Sua gelatina… é perfeita. Eu é que não quero mais.
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KAIZEN. 29.04.2020
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