Da janela do quarto, Alice podia ver a mesinha de escrever na área externa, debaixo da cerejeira. Metal laqueado de branco, ornamentos no encosto e no tampo. O lugar sagrado. Todas as tardes, descia com uma xícara e punha-se a fazer nada. Também desenhava. Não reagia às críticas quanto à sua expressão. A produção durava apenas um mês. Depois, voltava para sua cidade. Para tudo que não a pertencia. Ali era seu lugar, mesmo alugado. – Tem certeza de que não é necessário desocupar? – Em absoluto, querida. Fique o tempo que for necessário, até tudo isso passar. Estamos sem previsão para a temporada. A escritora, e também desenhista, aceitou o desafio de atravessar mais alguns dias trancada. O sol alcançava suas pernas pela manhã. O caseiro fornecia alimentos da cidade. Comia pouco, dormia muito. Ao abrir a janela, permitia que o vento tirasse os pensamentos do lugar. Lá fora, todos os dias foram perfeitos. Dentro dela, a ausência dos que caminhavam e viam-se deitados, inertes. Nestas férias, desceu uma única vez, no primeiro dia. Sobre a mesinha deixou a caneca, o bloco de notas, a xícara. Deixou também um desenho. Alice tinha a pele boa, vistosa. – Dá vontade de pegar, Tião. Uma mulher linda. Ela é angolana, fala nosso português. Uma pena Elzira ter se enrabichado lá em casa. Trouxe as máscaras? – Tá aqui. Não vai incomodar a moça. Dona Regina disse que ela é importante. Leva álcool também. Dona Regina disse que ela não sai de casa pra nada. É intelectual. Alice agradeceu ao caseiro, pela janela. Ele já estava avisado que, além de não falar com ela, não era necessário tocar nos objetos à mesa. Insistindo em ficar mais um instante na presença da mulher, o caseiro arguiu qualquer coisa: – Mas pode chover, molhar tudo. – Deixe. Muito obrigada por isto. É uma linda máscara, sua esposa quem fez? – Tenho esposa não senhora, moro sozinho, qualquer dia… – Preciso voltar. Mais uma vez, obrigada. De volta ao quarto apertado, entregou-se ao processo de deixar o externo no externo. Após a interrupção do admirador, escreveu. “É preciso que a antiga Alice também fique no passado. Que os objetos se transformem. A nova moeda é a vida. Presa dentro desta casa, não me permito sair ao ar livre. Nem sequer experimento a textura do carpete que convida à rua. Caso o fizesse, não teria autonomia de continuar a escrever sob a pele de alguém que esteve presente em um momento tal qual o observamos estupefatos. Deixo que os objetos desidratem. Desafio a tempo a rachar a louça sob o sol. O desenho no papel borrar. Que renasçam, assim como todos nós faremos. Tenho certeza…”. Foi assim, no final de abril de dois mil e vinte, que Alice “abrolhou” dentro de sua íntima literatura. Palavras inéditas alcançaram-na. Tudo, a partir daquele momento, foi novidade.
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ABRIL. 30.04.2020
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