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119. FOLCLORE. 28.04.2020 119

Seu Zé voltou todo sujo para casa. As pegadas de lama denunciavam a fuga do velho.  – Está lavando os pés, vó.  – Zé, nem seu neto brinca com esses menino da rua. A casa tá que é lama pura, vai limpar tudin. – É porque minha filha estraga ele. Na rua que é bão de brincar. Meu joelho tá bonzinho, ó só.  – Renatinho, meu amor, sai desse apareio e aproveita pra lavar as mão na torneira com seu vô.  A lama sempre foi um personagem na casa de dona Terezinha, do velho Zé, este, com alma de menino. A esposa queria o asfalto. Assim como as vizinhas da rua ao lado podiam empurrar o carrinho de feira, ela também gostaria de desfilar sem carregar peso, mas era muito buraco, coitada. – É o que, menino? – Tá aqui no Google, vó. Sua rua pertence a outro município. A rua do lado é de outra cidade.  A cara de espanto foi tremenda. A rua da casa do seu Zé das bolinhas de gude era uma linha imaginária que dividia dois territórios.  – Ninguém por aqui imagina mais nada, meu neto. Por isso que tamo esquecido nesse lamuero. Se não fosse eu, esses minino nunca tinha visto um pião na vida, uma pipa. Minhas bolinha de gude tão tudo perdida com eles. Isso que é bom… Espia só… bicho de pé. hihi. Tereza, traz o alicate, vô mostrar pro Renatin.   Mais tarde, um homem chegou para falar com o dono da casa.  – Seu Zé, não vamos poder esperar. O subprefeito vai arrumar a rua. Eleição tá chegando, me desculpe. Mas a tevê agora tem uma repórter que já já bate aqui. Sinto muito.  – Tudo bem, meu filho. Tudo bem. Esses menino já tem o que eu pudia dar pra eles. Pode trazer as retroescavadêra e mandar ver.  Tinha uma vantagem em morar no fim do mundo, podia-se fingir que ainda era como antes. Naquele mesmo dia, à noite, seu Zé fez uma grande fogueira. Chamou todos os garotos da rua. As meninas, empolgadas com a visita de Renato, foram junto. Pela última vez, ouviram a história da mula com cabeça de fogo, mesmo com a péssima atuação do velho manco.