Hoje, foi dia de faxina. Já não tenho comigo a força da galera, mas subo e desço escadas equilibrando minhas teorias com sossego. Inalando aquela poeira irritadiça, com o abandono de seu anfitrião, um espirro me trouxe de volta assuntos já sedimentados pelo tempo. Mas a pergunta principal era mais ou menos se eu faria as mesmas coisas caso estivesse sozinho nessa quarentena. Primeiro item: puxar o zíper de meu gênero. Cima a baixo, num rasgo só. VRAU! Teria espaço para visitar outros corpos. Dançaria no espelho, comeria com violência, lamberia os dedos. Nada a raspar. Vasculharia cada fissura de minha partitura física com desembaraço… Calma, homem. Respire. Não quero experimentar isso agora. Talvez, nem seja o melhor momento para abdicar de algo, mas o “e se” pega. Analisando, percebi que meu comportamento talvez seja essa tal performance para o outro, e isso não deixa de ser tranquilo. Ainda sou eu, genuinamente eu. Mas… estaria preparado para ser o último homem do mundo? Pergunta besta, vaidade no último grau, e nem seria digno. Mas o encontro para dentro, o mergulho no abismo do eco em “si”, dá um medinho. A certeza absoluta da não companhia. Plateia vazia. Teatro fechado. Se me expresso na esperança de que o outro reaja, como faria para realizar este desmonte de mim mesmo? Inverti o jogo! Perguntei aos móveis, ao vento que espalhava o pó, o que eles fariam sem mim. Como seria tudo isso sem a minha ilustre presença? Sentiriam falta? Pena? Carência aguda de alguém para alisar essas superfícies ásperas? E o vento? Correndo livre, lembraria-se de um corpo pretérito que lhe impedia a passagem, obrigando-o a assobiar pedindo frestas? Nunca saberei, mas suspeito que entre mim e eu mesmo, exista um véu bloqueando galerias. “Não vá fundo demais”. Sussurrando “está tudo como tem que estar”. Todos os dias, faço um monte de tarefas crônicas, como o banho, escovar os dentes etc… uma hora, a sujeira volta. Outra hora, estarei aqui mais uma vez, a oito degraus do chão sob a iminência da queda. E, para nosso espanto, será uma surpresa. Como o sopro levanta a saia. O tempo deposita em nós esse pó irremovível que se acumula, nos denuncia. Ali, nos perdemos entre vincos, dúvidas e amores, próprios ou alheios, isso varia.
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FMFB26 DESMONTE. 26.06.2020
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