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110. FIM. 19.04.2020 110

No limite da linha do horizonte, Ana observou um barco de pesca sumir. Virou-se e esticou os braços sobre o parapeito da varanda. De olhos fechados, sentiu o sal cobrir seu corpo, trocar de perfume. Abriu os olhos devagar, na sala, dividida por enormes vidros, seus amigos brindavam o aniversário. – E se alguma coisa acontecer a você? A extensão da varanda ocupava todo o pavimento da rocha, única construção. Traços minimalistas combinavam com o humor da família, sempre discreta na mídia.  – Já temos vizinhos na cidade. Meu avô tentou preservar ao máximo esse “pedaço do paraíso”.  – Então, foi aqui… nesta praia? – Nesta mesma praia, há oitenta anos.  – A guerra é uma coisa tão fora da nossa realidade. Não é mesmo, Ana?  – Você acha? Talvez não para eles. Veja.  Uma revoada de fragatas perdia o rumo. Ao centro, duas aves bicando-se desnortearam o bando. O conflito se aproximou. Ana afastou o corpo. O pássaro ensanguentado, rompeu a vidraça derrapando sobre a mesa extensa de comida farta. O jantar fora arruinado.  – Cuidado.  Ao se aproximarem, viram que o sangue era de uma coloração lodenta. O cheiro putrefato causou náusea e ânsia aos convidados. Não era possível remover o bicho estraçalhado sobre a mesa. A varanda, refúgio contra o mau cheiro, mostrou-se igualmente hostil.  – O céu está diferente.  – Vem uma tempestade. Ana?  A velocidade do fenômeno surpreendeu a todos. A anfitriã não demonstrou espanto algum. A chuva parecia feita do sangue da fragata, o lodo consumiu a varanda. A água maldita diluiu feito ácido conflitos passados. Ana descia pela trilha até a praia. Despreocupada, deixou o vestido cair de seu corpo. Andou até o primeiro quebrar de onda. Olhou mais uma vez para a intervenção arquitetônica excêntrica esculpida na rocha. Uma pena tamanha destruição. A água ácida separou o concreto do que era natural.  – Está feito. Alguns precisaram de mais tempo. Obrigada pela concessão, vovô.  O corpo da mulher idosa nadou com certo vigor, até sumir no limite da linha do horizonte.