As crianças de hoje talvez não saibam, mas, num passado distante, houve uma brincadeira interessante chamada “estátua”. O grupo de jogadores fazia careta e corria pela casa, quando um gritava “estátua” todos paravam, imóveis. – E dá pra jogar de dois? – Dar, dá. Vai ter que dar. Arreda ali e vamos abrir espaço. A mesa de centro foi parar na varanda mínima. Juntou-se com a bicicleta ergométrica enferrujando, intacta. – Estátua. – Calma. Antes… espera. Vamos definir as regras, Carlinhos. A primeira regra era lavar a louça, caso saísse da posição ou abrisse a boca. Estátua é estátua: não pode falar. A segunda regra era nunca ferir os sentimentos um do outro. O primeiro a quebrar as duas regras foi o nubente Carlos. Paula permaneceu imóvel, petrificada com a informação – vazada numa conversa do marido, enviada por engano. Até pensou em malhar, mas sentia vergonha dos vizinhos – e de si mesma, por prestar-se ao papel de competir com um contatinho. Seria humilhante. A única vantagem foi que, de quarentena, ele brincava só com a esposa, e isto, naquele momento, era uma vantagem no jogo.
111
111.
APARTAMENTO PEQUENO. 20.04.2020
111