Tudo isso que você está vendo foi sem combinação entre nós. Juro. Mas eu sabia que essa festa ia acontecer. Desde quando? Posso começar pela primeira vez que sorriu para mim. Eu achava que era comigo. No meio da multidão. Eu, atrás do seu amigo. Mas, daí, logo chegou minha vez. Prazer é meu. Talvez, mais tarde, naquele mesmo dia: você tocou meus dedos tentando nos puxar. Talvez não se lembre. O seu calor já dizia. Se fosse um adjetivo, seria “espontâneo”: entre essas sílabas, meu amor nasceu. Todos os músculos do seu rosto dedicados a agradar-me. Ninguém percebeu. Jogamos camuflados, invisíveis. Um jogo delicioso. Quem imaginou que um dia de carnaval me traria você? Um instante, dentro de um minuto inteiro, dentro de uma hora completa… de um dia inteiro que nunca acabou. Existe intensamente em mim. Meu filme favorito. Sei todas as falas, cenários e guardo a versão “director’s cut.” exclusivamente para assistirmos juntos. Sinto o cheiro bom de cada hora. Em todas está você. O gosto da sua boca na minha. A sua mão gelada da cerveja pelo meu rosto. Me puxando para perto, como se alguém fosse me roubar inesperadamente sem que tivéssemos trocado contato. Seria o fim trágico, se você já não fosse meu. Os olhos se perdendo. O Monte Sinai, Tarantino, a torre Eiffel, o esboço… tudo o que existe, havia nascido dentro do nosso abraço. A paixão é nosso ato divino; todos os versos, de todos os livros já escritos, em qualquer tempo, teria nosso nome cravado. Dentes na carne. A tormenta de Aivazovsky, o sorriso de Da Vinci, tudo fracassaria longe do nosso desejo. Quando o beijo termina, vem a difícil obrigação de respirar por conta própria, pegando fôlego. Reaprender a andar. Abrir os olhos doía. Eu não sabia de que lado acordaria. Se eu dentro do seu corpo ou se seríamos um só. Será que essa quimera se desfaria na quarta de cinzas? Geneticamente compatíveis. Predestinados. Quantos fatos quase me afastaram de você? Quantos compromissos perdi? Quantas vezes me apressei para que os acontecimentos me trouxessem até àquela tarde? E, ainda sim, precisei contar com a sorte: você precisaria me sentir, se envolver e me escolher. Amor à primeira vista? Aquela não foi a primeira vez que nos vimos. Já nos conhecíamos, estávamos apenas no jogo outra vez. Intimamente. Doeu pensar em qualquer outro lugar, ou pessoa… Quando você entrou por essa cozinha, no nosso primeiro dia de louça suja, foi uma festa em mim. Logo eu, que nunca pensei em convidar ninguém para morar aqui dentro. Ainda sim, tudo esteve sempre preparado. Aquela surpresa boa, que a gente finge não saber que vai começar.
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FESTA SURPRESA. 15.02.2020
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