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045. TRES. 14.02.2020 045

O livro de capa branca. O triângulo dourado dizia que se tratava do tal compêndio proibido. Bruno analisava o objeto. – Eu li sobre… em algum lugar. Você acha que é verdade? A parte que diz que se você encontrar a página… – Bruno… eu não acho, nem tenho certeza. Mas, se eu encontrasse, jogaria fora. Fingiria que não era comigo. Deus me livre. Já ouviu as coisas que falam sobre esse livro. Por acaso… – Não. Não. É que… encontrei um livro no metrô hoje. Daí me lembrei dessa história.  – E qual livro você encontrou? O filólogo mostrou outro livro na sua bolsa. Escondeu o outro com jornal impresso.  – “Pálido Ponto Azul”… Você não passou essa fase existencialista de escritor iniciante? Você vai sair dessa, amigão. Carl Sagan é um alienígena.  – É… Bom. Vou indo – Puxou a bolsa para si – Quanto devo? Saiu sem pagar. O amigo, que um dia foi garçom para pagar a faculdade, era dono do negócio todo. Gostava quando o ex-colega de faculdade vinha conversar.  – Não ajudou em nada… Dobrou a esquina. Interrompeu o passo antes do cruzamento. Olhou para trás por uns segundos. Levantou o pulso esquerdo. Megan.  – Meu nome não é Megan, Bruno.  – Eu sei, mas se eu não te chamar assim não terei coragem.  – Deixa eu adivinhar, você foi procurar o Leon? – Como você sabe? – O escritor, é muito bom. Mas você é previsível. Eu sou a última opção. Provavelmente, Leon não deu a mínima para o que você disse. Desembucha, vai.  – Pelo menos o café está melhorando… E megan foi inspirada em você, me desculpe.   – Eu não tenho tempo… Jesus Cristo onde você encontrou isso? Por que diabos trouxe isso até a minha casa? – Por favor, me escuta… – É falso. Isso é mais uma de suas brincadeiras de escritor? Puta merda, você já abriu? Bruno, fala alguma coisa. Merda!  – Encontrei no Metrô.  Mel Gamboa fechava as cortinas do ateliê. As luzes da frente não encontrariam a noite, como todos os dias. Total escuridão na fachada da famosa esquina do bairro boêmio da Graça.  – Você tem 34 minutos até eu reabrir. Explica isso.  – Eu estava no metrô. Certo? Isso. A estação estava vazia. Nunca está vazia. Não nesse horário, não nessa cidade. E… eu me sentei para esperar. O painel pifou, não dizia os horários dos vagões. As luzes piscaram e quando voltaram… bom, “isto” estava ao meu lado.  – Aponta isso pra lá.  – Você se lembra? Eu preciso saber se você se lembra?  – É claro que eu me lembro. Mas vamos precisar do “barista”. Lembra? “Só abrir na companhia de dois amigos: três”… Ainda estamos em dois. Vamos.  O som grave da porta batendo. O vento gelado da rua. Dois vultos retornavam pelo mesmo caminho feito da cafeteria para o atelier. – Mas você é mesmo uma toupeira insensível, não é não, Leon?  – Boa noite, Megan. Como tem andado?  – Meu nome não é Megan… – Parem vocês dois. Tem uns minutinhos, Leonidas? – Você está nos chamando assim… Bruno, você está com aquele olhar… Não. Não pode ser… – Sim. Eu, você e o Tolkien lá atrás. Agora.  Mel sempre acreditou que seria ela a encontrar. Caso aquela cidade, aquele bairro, e aquele grupo de amigos, fossem escolhidos.  – Eu abriria, mas você sabe que eu não posso fazer isso. “Você” encontrou, Bruno. – Tudo bem, eu vou abrir. Mas… eu preciso saber se vocês estão de pleno acordo.  – Abre logo isso, antes que eu fique doida.  – Não, Bruno! Calma. Pera. Eu preciso pensar… eu tenho meu café, funcionários. Que loucura. – Você esteve pensando nisso desde a hora em que o Stephen King saiu da sua cafeteria, eu sei disso. – Estive, mas agora é “a hora”, não é? Nós éramos crianças… – Adolescentes, quase adultos, Leon.  – Beleza, Megan, digo, Mel… mas e se for verdade… se abrirmos esse livro e a página dourada estiver… vocês sabem… Com o nome de alguém escrito nela.  – Daí, a história vai surgir, e você não vai poder ler… Lembra? Se for o seu nome aqui, você mesmo nos pediu: quero que seja um de vocês dois. Só dá pra abrir se for três amigos. Então, abre logo, antes que não seja mais possível por falta de amizade.  – Abre então, Bruno. Rápido. Os vidros da entrada refletiam o dourado vindo dos fundos da cafeteria. Uma xícara quebrada no chão. Uma moça balançava o laptop. Um rapaz com as mãos sobre os olhos. O estrondo da batida no cruzamento. As luzes voltavam lentamente. Dois homens brigando, um deles ao telefone. O chão sendo limpo por uma garçonete. O bloco daquele quarteirão retornava do apagão violento.  – O que diz aí, Bruno?  Leon fechou o livro. Arremessou pela porta de serviço. O objeto salteava os degraus da entrada do metrô. Abria-se, e o feixe de luz lançava rajadas. Fechava-se, e ganhava mais força na queda. Rolou todos os degraus. O banco para duas pessoas aguardava o pouso final. Interrompeu o tombo ao lado de um rapaz lendo jornal. Os painéis piscavam. Ele nunca entraria naquele metrô.