Pensamentos são como bichos soltos aos pés de uma montanha. Quando presos, exigem todo o espaço. Brigam. Se soltos, podem escalar e, como fazem alguns bodes, jogar-se lá de cima sem saber que morrerão. Buscam algo seguidos pelo instinto. O que, não se sabe. Aquele dia inteiro foi feito de conversa, de diálogo. Sentaram-se à mesa, discutiram todos os pontos que cada um trazia. Negociaram com vozes alteradas. Magnólia exaltou-se e exigiu respeito. O marido exilou-se no quarto. Cinco minutos e os dois reiniciaram. A porta ali no meio, ouvindo tudo, apartando os ânimos. Conversaram. Divididos, cada um preenchia o espaço com suas respectivas vozes. Reiniciaram sob os mesmos termos, já não sabiam ao certo o porquê da discussão. Indignada, Mag pegou o estojo e foi até à janela da sacada. O isqueiro lembrava as noites longe dali, no passado. Lembrou-se dos muitos homens que libertou para marcar apenas um. Repensou o modelo de casamento. Arguiu sobre a possibilidade de amar mais de uma pessoa, mas não obteve resposta. O cigarro, se pudesse falar, óbvio, diria: “deixe-me tocar os lábios ainda tão desejados”. A atriz aprisionada num personagem à espera. Nunca fumou, mas aprendeu com o cinema os gestos sedutores. Segurar o vício nos dedos era controlar. Nunca tragar, era todo o poder que tinha. O par era competente quando na ocasião do silêncio. No intervalo entre um dizer e outro. Entre uma discussão ou briga, sempre coube a partitura física da mulher. Diziam tudo tal qual cinema mudo. A atriz do diálogo, afinal, teatro é também palavra, emudecia-se diante do fato de que precisava esperar, tomar fôlego, para deixar de tragar; isto acalmava a velocidade de seus pensamentos. Do cume da montanha mais íngreme, bestas arremessavam a si mesmas pelo elementar prazer de uma nova escalada. Magnólia observou a rua. Vazia, quando deveria estar intransitável. Apagou o cigarro e entrou.
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ENTREMEIOS. 13.04.2020
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