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103. AGNES. 12.04.2020 103

Alguns planos são deixados de lado. Sempre são. Cresceu num bairro pobre da cidade, o abuso e o silêncio não tiveram remédio. Como não sabia como entrar, resolveu curar o que podia tocar: tornou-se enfermeira. Amenizar o sofrimento alheio confortava a culpa que não lhe cabia, mas cuidava como a um paciente. Enterrar-se nos livros da biblioteca pública tirava-a da casa que a convidaram para entrar. Saía ao anoitecer, quando não havia mais ninguém para recebê-la. Em um determinado momento da vida, o chão não mais existiu. Os pés flutuaram. Braços pendidos no ar. O oxigênio preenchia seus pulmões, nenhum esforço. Nenhuma dúvida. Estava tudo resolvido. Sem saber se merecia, sem saber o que fazer, restou no leito. Aceitou.  – Onde estou?  O contraste do toque. À sua frente, um anjo de olhos azuis, pele alva. Os cabelos ruivos, mesmo presos, reluziam o laranja da tarde sem calor. Dentro do quarto isolado, um gesto de coragem: a máscara foi movida. O anjo da morte falou.  – Colega, sou eu… enfermeira Agnes. Você está curada.  Agnes não sabia o que estava falando. Salvou a colega de profissão de um dos açoites, mas colocou-a de volta na prisão. Agnes não era uma pessoa má, tinha até boa intenção. O corpo era passaporte, limite, entre dois lados. Agnes só não sabia qual, ou onde, a paciente queria estar. Levantou-se e agradeceu. Curada, salvou vidas, no lugar onde outra pessoa resolveu que ela deveria estar.  Alguns planos são deixados de lado. Sempre são.