– Onde foi dessa vez? – A banca do seu Israel. Alguns ainda corriam pela orla da cidade, tomavam água de coco. Nenhuma preocupação com a fuligem que descansava sobre as mesas dos bares, sobre os cabelos de cobre da estátua de Turmalino Braga, famoso banqueiro fundador da cidade. As ruas tingiram-se de pó preto. Ao entrar em casa, era necessário lavar os calçados em uma solução de hipoclorito de sódio e descansar na janela. Mesmo que o ar de fora sujasse novamente a casa e tudo o que havia dentro. Os moradores, aos poucos, aceitaram a condição de circular usando máscaras para filtrar o ar, contaminado pelos recorrentes incêndios aos estabelecimentos comerciais. – E agora? – O supermercado da praça. Comércios pequenos, mais populares, foram os primeiros. Em seguida, alguns lugares de produtos essenciais, como supermercados e casas lotéricas. O fatídico momento em que todos perceberam haver algo de errado estaria para acontecer três semanas depois do primeiro fogaréu público. O banco TBB, o maior edifício da cidade. O prédio mais seguro da capital cedia ao calor. Implosões quebraram todas as vidraças. Do lado externo, o vidro cortava a carne de quem não acreditou e parou para observar. – Não pode ser. – Pois é, o banco da cidade foi-se. E agora? Agora é trancar-se em casa. Todos pensaram, pois, as ruas esvaziaram-se de imediato. Um estranho fenômeno surgiu nos lares da cidade arrasada. O primeiro caso registrado oficialmente foi o do senhor Álvaro Braga, Bisneto da estátua. Sentado à mesa de jantar, a manga de seu pijama estalou, subiu pelas veias uma quentura que o fritou nos ossos. Os filhos e a mulher testemunharam a carne rasgar e escorregar pelas paredes após a explosão de “uma das mentes mais brilhantes”, como dizia o jornal – também da família. Em duas semanas, sucessivos incêndios domésticos começaram. Lá fora, já não havia mais nada. Nem esperança, tampouco escultura de Turmalino Braga; derreteu-se no calor da crise de horror.
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INCENDIOS. 14.04.2020
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