024
024. DUDU VEM. 24.01.2020 024

Dona Carmen estranhou o barulho no andar de cima, o vizinho nunca dava festas. Do lado de fora, o vento gelado aborrecia os desprevenidos. O fim do dia sempre era uma surpresa naquela cidade. Do décimo andar do prédio, as luzes piscavam e convidavam para entrar quem passava.  – Ele já vai chegar, Brígida. Entra aí.  As pessoas dentro da sala estavam um pouco indiferentes. Pareciam aguardar por uma surpresa que talvez já soubessem.  – Oi, Mari… não sabia que viria também.  – …Oi, Brid.  Sentado no sofá, do outro lado da sala tímida, Bruno espiava a conversa entre as duas mulheres, que carregavam o mesmo semblante de quem acabou de trocar uma tinta no trânsito.  – Você aqui… – E aí, Yasmin, de boa?  – Bruno, chega pra lá e não puxa muito papo, pode ser?  – Você também conhecia o Dudu? – Claro. Dudu é ótimo. Nós tivemos “um lance” pouco antes dele ir. Nos conhecemos na porta da sua casa, sabia? Quando fui “tentar” te devolver algumas coisas. Ao fechar a geladeira, uma força impediu a porta de se mover. – Gael? – Oi… Mônica… acabei de chegar. Juro que não sabia… – Imagina… O Dudu já chegou? É que já tá ficando tarde pra mim…  Ao voltar para a sala, mais algumas pessoas chegavam. Pareciam gostar da música animada. Um rapaz veio se esgueirando entre os convidados, equilibrando copos e uma jarra grande.  Pessoal, enquanto Dudu não chega, trouxe uma rodada do que tinha de melhor.  Bebiam e se divertiam, e ninguém questionava a razão. Uma festa de muitos nós do passado se desfazendo pelo salão. A bebida era refrescante e a luz sensual. Não houve reclamação por parte da vizinha de baixo e muito menos dos apartamentos ao lado.  Uma farra inesperada. Tão surpreendente quanto encontros não marcados.  Brígida e Mariana, anos depois, convidaram os amigos para o chá de bebê das filhas gêmeas. Yasmin chegou abraçado ao Bruno, e os dois filhos pequenos na frente. Gael e Mônica haviam se separado, mais uma vez, mas decidiram ir juntos e tentar, pelos velhos tempos.  No mural de fotos do casal de mamães, todos se espremiam para ver se estariam entre algumas memórias. Lá estava uma foto de um rapaz, com uma jarra na mão, distribuindo copos num apartamento lotado. Alguns uniam as sobrancelhas e se perguntavam: – Dudu veio?