Por algum motivo, que não se pode analisar no momento, Daru, o estudante de artes não podia tocar ninguém. Uma vez, sem querer, ao trocar suas luvas, encostou em uns anjinhos de madeira que, por acidente, caíram sobre o rapaz. Desde então, por onde passa, o artista vê as pequenas criaturinhas se escondendo para não chamar sua atenção. Sempre ali, aguardando o comando que nunca vem. Por algum motivo, que não nos cabe analisar no momento, Daru, conheceu Kiki a modelo que posaria para a turma. A moça, substituta, trazia na pele a ilusão do carrara. Por fora, aparência macia. A quimera na tez trazia consigo o desejo reprimido, ao ser tocada revelaria a dureza e a distância do mármore. Ao ser tocada, destruiria a ilusão de que Daru tanto precisava. Tocá-la, além de uma condenação para si próprio, seria um castigo para a moça inocente. Isso o fazia se lembrar de Bella. Antes de tudo que já foi dito, e ainda sem saber de seu destino, passeando pela ruas estreitas de Paris, o moço de dedos amaldiçoados encontrou sua sina. Viu pela primeira vez a face italiana da beleza, que no nome e na aparência traziam perfeição: Bella era linda. Mas, ao toque, se tornou a primeira obra de arte de Daru. Seu semblante endurecera. A vontade de fugir criou-lhe asas, se quebraram com o peso do mármore. Ele fugiu, ela ficou lá para ser admirada. Voltando do coma da memória, espiou a ponta de seus dedos ao segurar o lápis. Os dois toquinhos de madeira lhe trouxeram o par de luvas. Daru tocou a ponta do nariz da primeira besta animada. A sala virou-se para ver o entalhe angelical espatifar-se no chão. O segundo bibelô bateu asa e fugiu com medo de seu destino. E por algum motivo, que não se pode responder até hoje, o rapaz, a moça que posava nua e a besta de madeira ainda sofrem do mesmo mal; todos condenados à eterna solidão.
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A VITORIA DE SAMOTRACIA. 25.01.2020
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