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023. A COR E O SALTEADO . 23.01.2020 023

Acordou e dobrou o lençol de solteiro. Arrumou os dois travesseiros e ajeitou os livros no criado mudo. Olhou o relógio acima de sua cama, abaixo da janela. Ao cumprimentar o dia, avistou a cafeteria.  – Bom dia, estranhos.  Zoe só colocava na bolsa o necessário. Saía de casa sempre com a antecedência de uma senhora que tinha muitos conselhos a dar, apesar de seus vinte e um anos. Ninguém a ensinou a ser organizada, nunca teve pai, sempre viveu sem mãe. Aprendeu cedo que para resolver seus problemas era necessário primeiro resolver o problema do outro.  Ao final da tarde daquele mesmo dia: – Me perdoe, Zuleica, me atrasei, mas o cara veio conversando e se perdeu na entrada.  – Imagine, respondeu desconfiada. Por favor, me chame de Zoe. Você nunca me chamou pelo meu nome verdadeiro.  – Você não gosta do seu nome, né? Era o nome de sua avó? – Não é isso, só que Zoe foi uma escolha minha, esquece… Zoe não sabia de muitas coisas, mas aprendeu a encontrar a sua responsabilidade em tudo que fazia ou participava. Controlar o que fosse possível ser feito apenas por ela. Por esse motivo talvez nunca tenha tido uma conta no Instagram, Facebook ou qualquer outro grito no escuro, segundo ela mesma dizia.  – Eu não posso controlar o que os outros dizem ou pensam de… – Aqui, você trouxe os ingressos?  – Você me ofende perguntando isso. Zoe balançou uns bilhetes enquanto sua amiga pediu mais cinco minutinhos para ir ao banheiro.  Aparentemente irritada, folheando o prospecto da peça, foi interrompida por um rapaz com uns fios nas mãos. – Com licença, moça. Posso usar uma das tomadas? O rapaz ainda não havia olhado para Zoe, procurava algo dentro da bolsa enquanto se aproximava.  – Você não parece gostar de Ariano Suassuna.  – Eu vim acompanhar uma amiga, ela está no banheiro, insiste na ideia de que eu preciso sair mais.   – Ariano, muito prazer.  – Como esse cara aqui? e apontou para o encarte escrito O Auto da Compadecida como título.  – Assim mesmo, o rapaz respondeu no momento em que apertava algo contra uma tomada.  Ariano e Zoe tinham muitas coisas em comum. Eram organizados, tinham um senso de justiça apurados e não deixavam que um resolvesse o problema do outro. Mas adoravam criar questões para resolverem juntos, como Zoe entender mais de Museus, Dança, Teatro.  – Fala de novo, eu nunca tirei tantas fotos em um dia. – Amor, é só melhorar a Nitidez para ver se não vai estragar a foto.  Zoe olhou para o namorado e pensou como permitiu que alguém entrasse em sua vida para ensinar algo. Mas além da Nitidez com que via o amor, agora tinha a estrutura emocional para compartilhar as saturações que a vida trazia, quando na plateia das peças que via, Ariano estaria sempre ao seu lado.  – Meu filho, você foi ótimo no papel da amiga. Veja como Zoe encontrou o que precisava. – Minha mãe, não tendo eu sexo ou cor, entrar em um coração necessitado é mais fácil.  E Nossa Senhora, lá de cima, ao olhar para o filho de todas as faces, sussurrava:  – É, dessa vez, de intervenção, estou liberada. Zuleica, minha grande amiga, venha ver. – Obrigado, mãe, minha neta finalmente está em boas mãos.  E saírem andando, por nuvens lentas e macias, uma velha, uma mãe e um filho, com cara de amiga mal organizada.