Um dia, voltando pela estrada do riacho, a pequena sentiu o vento geladinho e os respingos vindo de cima. Olhou e desde então, sobre sua cabeça, de lá a nuvem nunca mais saiu. Vivia sob a sombra dia e noite. Essa história, de tão absurda, é preciso contar para acreditar. A garota, que por conta de sua companhia, não era mais convidada para a tarde na calçada, para o banho no córrego, muito menos para a missa da igreja com móveis de madeira. Na pequena cidade, fofoqueira por vocação, Nubia era assunto. Da fila da lotérica e dos carros de frete que traziam gente da cidade para trabalhar. Quem chegava logo se impressionava com a garotinha em má companhia. A pequena nuvem apaixonada, que trazia chuva solitária, que amava sua companhia e de mais ninguém. Onde quer que fossem, a menina e a nuvem passavam só. Ninguém queria compartilhar o pedaço de terra molhada que vinha descendo ladeira até a beira da estrada. Em determinada época do ano, a menina era boa companhia. A terra seca chamava para prosa, os fazendeiros protegiam a menina quando dela não precisavam. Um ouro no meio do nada. A fama abriu porteira e a menina viajou cidades afora. Visitou solo morto, operou milagre de colheita improvável. Ela nada fazia só passeava. De sua própria desgraça era inconsciente. A menina foi crescendo, se tornando mais e mais necessária, pois a medida que os seios cresciam, crescia também a necessidade da plantação irrigada. Nuvem grande, grossa, aumentava na mesma proporção. Os mesmos fazendeiros passaram a desejar sua vaidade. Um dia, a chuva cessou, os cabelos secaram. Na aurora da liberdade, a torrente desceu forte, vingativa. A cintilância precedeu o estrondo. Chão torrado. A mulher que virou luz substitui a história antiga da mesma protagonista. Os céus passaram a não obedecer ninguém. O homem perdeu controle sobre a chuva, agora a fúria do solo é castigada pela eterna briga entre o calor do homem e a sublimação da maldade.
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CUMULONIMBUS. 14.01.2020
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