No dia primeiro de janeiro do ano dois mil, trinta bebês nasceram no primeiro minuto do novo milênio. Rostos lindos, saudáveis. Entretanto, uma infeliz peculiaridade os unia: todos perderam a mãe. Nem todos tiveram uma vida confortável. Em um grupo diverso, variáveis como a violência, o desamparo familiar e a falta de dinheiro trouxeram complicações que, talvez, possam ter comprometido o desenvolvimento dos trinta recém-nascidos. Vamos começar por Lucas, o mais velho – por um milésimo de segundo. – Filho, já está pronto? – Mãe arruma minha gravata, por favor, eu ainda sou criança. – Lucas, você já tem dezoito anos. Duvido você dizer isso para os seus amigos no baile. E não quero bebidas. Confio em você… – “… só não confio nos seus amigos…”, pode deixar. Me empresta o carro? – Humberto? – Pode liberar, é aqui perto. Ouviram o motor falhar duas vezes. Shirlei e Humberto permaneceram sentados até o filho arrancar com o carro na marcha errada. – Precisamos contar… Você prometeu que seria aos dezoito anos. – Eu sei… Mas ele está tão feliz. Vai mesmo querer acabar com a alegria do nosso garoto? Essa é a melhor idade. Deixa ele viver, Shirlei. – Humberto, eu sou mãe. Eu estou sofrendo. Me diga o que fazer. – Esse é o baile da vida dele, contamos quando entregarmos a carteira de motorista, já acertei no departamento. Assim damos a ele uma compensação. – Você é inacreditável… Do outro lado do salão, um grupo de meninas se agitou com a chegada de Lucas. – Não que ele seja “ai, meu Deus, o último Óreo do pacote”, mas olhem. Não parece o Dicaprio? – Eu vejo um Macaulay Culkin em plena crise. – Lembrem-se que esse baile foi ideia dele. Teremos assunto para iniciar uma conversa. – Achei muito americano e brega. Mas ele é um gato sim. Uma semana. Foi o tempo para o tédio instalar-se na sala da família Torres. Decidiram que era a hora: – Filho… – Eu já sei. Vocês escondem muito mal. Minha carteira chegou, pai? – Você está falando sobre o que, exatamente, Lucas? – É… do que acha que estamos falando? Ou o que, talvez, fossemos falar…? – Eu sou adotado. E vocês estavam encontrando um jeito de me contar, vocês tiveram essa mesma crise na minha formatura do fundamental. Eu ouvi a conversa na época. – E por que não disse nada, meu filho? – Mãe, por favor não chore. Eu só preciso muito da minha carteira de motorista. Tá atrás de você. Dentro da caixa com o laço. – Você vai fugir? – Pai, eu tenho uma coisa para fazer. Preciso viajar. Tudo bem? A família se conhecia o suficiente para saber que o rapaz falava a verdade. Alguns dias depois, antes da partida, Humberto bateu no vidro do motorista: – Eu sou seu pai biológico. – Isso eu também já sabia, paizão. Volto em poucos dias. Todos nascemos livres e iguais. Lucas sabia dirigir, mas respeitava suas falhas. Assim como a marcha escapulia, às vezes, os pais também erram. Mas a vida dá um jeito de acertar o trajeto.
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DIREITO HUMANO NUMERO 1 NASCEMOS TODOS LIVRES E IGUAIS. 01.05.2020
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