O mundo gira, coisas, pessoas, fatos envelhecem, a memória falha, mas, até chegar qualquer fim, muita coisa acontece. Outro dia, me ocorreu de convidar uma amiga para assistir a uma peça de teatro. Não qualquer peça, dessas que disputam atenção em panfletos entregues na saída do metrô. Nada, em se tratando de Clarice, é aleatório; tudo é uma questão de como se olha. Sendo a peça sobre a escritora, eu, na condição de estudante das letras, resolvi convidar, portanto, esta amiga que saberia como direcionar o olhar para o singular, que emana das duas palavras combinadas: Clarice Lispector. Eu poderia, claro, dizer qual teatro, a hora e todo o serviço completo da peça, mas direi assim: a cidade do Rio de Janeiro movimenta muitos corpos. Uns, chacoalham em camburões, outros, rasgam as avenidas dentro de um rabecão, outros tantos, parecem dançar. Ela chegou solta, fora da sincronia da pressa. A tarde já quase morta, vencida pelos passantes, cedia luz para a única pessoa que importava. O laranja dourava o burocrata, a faxineira, a calçada de pedras defeituosas. Tudo para que o cenário pudesse melhorar, tornar-se passarela. O sabor de um sorriso. O som da alegria do encontro. A toca do coelho aguardava, era hora de atravessar. Tão logo entramos na faixada obscura, para que se mesclasse com o horror da vida cotidiana, tudo do lado de fora perdia o viço. A exuberância ficava da porta para dentro. Palco, um banco e um sofá: era tudo que a montagem exigia. A atriz costurou-se no texto de Clarice tornando-se parte do todo. Uma mulher poema, infinita; dois espectadores redescobertos. Saímos de lá sem nos reconhecer. Nós nos reapresentamos apropriadamente, e precisamos da ajuda um do outro para assimilar aquela realidade outra, desafiadora: nada estava como há uma hora e meia. A descoberta do mundo começava em nós. Não pude, sequer, voltar para casa. Nunca mais voltei.
345
345.
DESCOBERTA. 10.12.2020
345