A vida é uma escada em espiral onde cada degrau passado é desmontado para que o próximo surja adiante, e assim viram espantos superados. Cícero passou novamente em frente à galeria, não teve coragem de enviar o trabalho para a seleção anual. – É como se eu estivesse preso a um degrau que não consigo subir… – Tem medo que afunde e você falhe, posso imaginar. – Por aí. O que devo fazer? – Você já sabe a resposta… O estudante de arte gostaria de pedir algum dinheiro de volta, mas as consultas eram gratuitas. – Foi falar com a turma de psicologia de novo, Cícero? – Não, Samanta. Fui fazer meu laboratório. Estou estudando para as finais de escultura da seleção de estudantes. – Que tem a ver eles com seu trabalho de escultura. – Diretamente, nada. Mas eu vou lá quando preciso de um subtexto um tanto mais subjetivo. Sou muito cético e direto. Eles amaciam meu espírito. – Você é maluco. – Isso já é com o pessoal da psiquiatria, no prédio anexo. Você devia ir até lá, para ver se perde o preconceito em relação à mente. – Já deu minha hora. Você vem? – Não. Vou terminar isso aqui. Eu pulo História da Arte hoje. Mais duas semanas e a grande obra estava completa. Todos os alunos foram para a montagem. Cícero empolgado. Os tutores passeavam pelo salão analisando cada obra de arte, ao se aproximarem de Cícero: – Sua obra, rapaz? – Está aqui. E apontou para própria cabeça. – E como vamos poder vê-la? – Não vão. Ainda não estão prontos. Aliás, nem eu mesmo estou pronto para concebê-la. Mas podemos conversar a respeito, quem me acompanha? Os mestres sentiram-se desafiados. Há anos não viam tamanho desaforo e audácia no exame mais importante para os estudantes. O flautista de Hamelim saiu na companhia da maioria dos professores. Algumas horas depois, o grupo retornava como a satisfação de quem havia saciado a fome. Espalharam-se pelo salão. – Esse rapaz tem futuro. – Claro que sim. Ele ainda não sabe, mas o convidarei para a exposição na Galeria da Cidade. Fui nomeado na terça. – Que grande começo. – Estou certo disso. Na reabertura da galeria, Cícero ocupava a sala principal. Podia-se ouvir os visitantes comentando sobre a sala branca, sem qualquer objeto. – Que grande obra, representou o máximo da subjetividade e do vazio humano. – Um talento. Na saída, cumprimentava alguns e entregava um pedaço de madeira em formato retangular. Todos aceitavam sem questionamentos, em respeito ao grande artista. Um menino que acompanhava a mãe, estupefata com tanta sensibilidade, foi apurar: – Senhor, o que é isso? – “Isto” é um degrau. Não se parece com um, não é? É porque é o primeiro. Você vai precisar de mais alguns. – Eu não compreendo. Talvez, eu acho, quando eu crescer vou entender melhor o que o senhor está falando. Sempre que pergunto alguma coisa, minha mãe diz que eu ainda sou muito pequeno… deve ser por isso não, é? – Você já nasceu grande. Guarde-o para lembrar-se disso. Nós, adultos, é que precisamos parar de ocupar tanto espaço.
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DEGRAUS. 17.04.2020
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