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107. A ULTIMA ENTREVISTA. 16.04.2020 107

O escritor, que não costumava fazer aparições públicas, decidiu que aquela seria a hora certa. A repórter vestia um tailleur bege, sapatos de camurça  e um corte de cabelo que não combinava com o rosto fino.  – Perfeitamente… Perdoe-me, como é mesmo o seu nome, senhora repórter? – Kiki Ray.  – Americana?  – Não.  – Curioso.  Levantou as duas sobrancelhas e deixou o corpo tombar na cadeira. Os braços continuaram cruzados. A mulher à sua frente ajeitava os cabelos e a postura para o início daquela que fora anunciada como a última entrevista antes do fim.  – Mas o senhor está doente, senhor Rembus? – Não. Mas olhe para mim…  Algumas pausas para dar atenção aos cachorros que invadiam a sala ou à enfermeira com os remédios.  – Perfeitamente… Me desculpe, como é mesmo o seu nome, por gentileza? – É “Ki-ki”, Kiki Ray, senhor Rembus.  – Curioso.  – O senhor é conhecido por escrever constantemente e defender que o bloqueio criativo é uma falha dos artistas. O senhor já se encontrou em algum bloqueio criativo? – Se eu me recuso a acreditar, como posso dizer que já tive-o? Você passou por alguma dificuldade em elaborar essas perguntas quando foi escolhida para a entrevista? – Não.  – Posso perguntar o porquê? – Por que o senhor é uma figura conhecida.  – Está aí sua resposta.  – Não compreendo. A resposta para qual pergunta? Sobre o bloqueio ou sobre minha competência? – Não posso falar por você, sequer sei o seu nome. Dizia sobre esse tal “bloqueio criativo”, ou a crença de que ele existe e pode ser usado como desculpa para artistas medíocres.  – Senhor Rembus, pode ser mais claro?  – Perfeitamente. Veja, este é o meu cão, Gustaf. Ele não pensa antes de agir, segue seus instintos: fome, sede. E de correr atrás deste bumerangue. Perceba.  O cachorro, da raça são-bernardo, disparou para resgatar o brinquedo, derrubando o cameraman e as luzes montadas para captação.  – Me desculpe, senhor Rembus. Minha equipe vai arrumar tudo, mil perdões.  – Não me lembro se você já havia me dito seu nome…  – Larissa, digo, Kiki. Kiki Ray.  – Senhorita Larissa, vou dizer a você apenas uma vez: negar a si mesmo é o primeiro passo para qualquer bloqueio. Seja ele criativo ou emocional. A alma é uma só.  Algumas semanas separavam aquele momento de um reencontro casual no futuro. – Marilza, minha filha aumente o volume, por gentileza, sim? O cão pedia atenção ao senhor que sorria ao perceber que uma moça chamada Larissa Gouveia havia trocado de nome e de canal. Mesmo mantendo o corte de cabelo inadequado.