A poeira trazida sobre os sapatos foi levada embora pelo vento da montanha. O carro trazia os turistas para uma pausa na padaria famosa pelos biscoitos de goma. Um pouco antes das dezoito horas, os sinos da igreja tocaram em ritmo frenético e descompassado, chamando a atenção de todos, também de Luis. Esse padre tá lelé, toca fora de hora, a moça dizia ao entregar o café. O turista interrompeu a prosa e olhou para cima. A subida era íngreme e apenas ele se atreveu. Subiu o morro em direção ao alto da igreja. Vão comendo aí, volto já. Os fotógrafos têm prazer em observar. Luis havia esquecido a câmera no carro e subiu a rua apenas com a curiosidade. Em alguns momentos ele já havia experimentado o prazer de não dizer nada, não falar com ninguém, só observar. O instinto havia aguçado sua caça para algo que poderia ser apenas uma memória fotográfica, uma lembrança boa. Mas o que ele viu foi algo íntimo. Das quatro ruas que desenhavam o quadrado onde a igreja fora construída, a primeira que Luis atravessaria formava uma encruzilhada. Numa das quinas, a figura graciosa, de olhos abertos, fixados no visitante. Sob o calor laranja a criatura pousava com a língua para fora da boca molhada, como quem pede água, mas não sabe onde encontrar. Perdido. Algum tempo depois, o grupo de amigos subiu para encontrar Luis. O companheiro despedia-se do padre. O que tu foste fazer lá dentro, se converteu cara. Fui ajudar um amigo aqui da cidade… fizeram cara de quem perdeu a piada. Desceram atendendo à buzina do agente de turismo que ligava o motor. Ao passarem pela mesma quina, os amigos nada perguntaram, não havia mais a figura que agora estava enterrada atrás da praça. Luis, com os dedos sujos de terra, entregava o número para a dona da padaria. Amanhã, quando for à missa, me diga se o padre mencionou este nome. E saiu agradecendo e fotografando a cidade pela janela do carro. Alguns dias após, a mensagem dizia que sim. O padre mencionou o nome Luis alguma coisa na encomenda para uma missa, de um suposto morador antigo que morava fora da cidade e havia falecido longe da terra natal. O forasteiro havia intercedido pelo animal exposto na rua, sem dono, sem reza, sem vida. Deu-lhe o próprio nome. Da exposição montada anos depois, com as fotos da cidadezinha, a figura digna de destaque não estaria entre as impressões nas paredes. Se houve dono, ninguém reclamou. Talvez se tratasse de uma obra de domínio público, assim como a fé ou a compaixão.
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CALOR TA DE MATAR 2. 13.01.2020
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