A única janela exposta do alojamento permitia que a luz do letreiro desenhasse suas curvas. Rolava de um lado para o outro. O relógio tocava no banheiro. – Você tá péssima hoje. – Como todos os dias, Diogo… – Vim te tirar do quarto. “Atenção, residentes do setor C-D, vinte minutos finais para retorno”. – Eu não estava com fome… Só queria poder sair e comprar algumas coisas para o meu cubículo estéril. Posso sonhar com isso? – Poder, pode. Mas as lojas já estão fechadas há dois anos. – Eu sei, Di. To dizendo de maneira figurada. Metafórica, sei lá… Não aguento mais viver assim. – Clara, você se lembra da primeira tentativa, a do vírus? – Você tá falando da… Como eles chamavam… Bio..? – Guerra Bio… alguma coisa… – É. Pelo amor de Deus, ninguém cairia nessa hoje em dia… tava na cara. Meu pai morreu por conta dessa tal guerra econômica biológica e idiota. O negócio dele faliu… e o resto você sabe. – … Bom, mas, pelo menos, a gente se conheceu. – Verdade, se não fosse a Conduta a gente até poderia se casar. Imagina? – Imagina só que doideira: “Conduta autoriza o retorno dos matrimônios. Aglomerações públicas são liberadas por tempo indeterminado”…
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CORTINA DE FUMACA. 14.03.2020
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